Canoagem

Irmã de canoísta da seleção morta por afogamento diz que atleta não sabia nadar

CBCa, no entanto, alega ter ensinado técnicas de natação para Dienifer Loreto
10/03/2014 09:07 - Atualizado em 10/03/2014 09:12
Por Daniel Costa e Francisco Junior
RIO

A morte por afogamento da jovem canoísta da seleção brasileira de base Dienifer D’Avilla Loreto, de 15 anos, durante treinamento no CT da Academia Brasileira de Canoagem, na represa Guarapiranga, Zona Sul de São Paulo, no dia 21 de fevereiro, está repleta de contradições.

Após mais de duas semanas, não há novidade no inquérito policial instaurado para apurar o caso. Enquanto isso, a família da atleta, que era apontada como revelação da equipe de velocidade, clama por justiça, afirmando que a menina não sabia nadar e que por isso não poderia estar sem o colete salva-vidas na hora em que se afogou. Do outro lado, a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) se defende alegando ter ensinado técnicas de natação para Dienifer e garante que ela estaria preparada para remar sem o aparato de segurança, mesmo em rios correntosos.

- Estamos em busca de justiça, porque o que aconteceu com ela não pode acontecer com mais ninguém. Eles (Confederação) estão dizendo que ela sabia nadar, mas isso não é verdade. Minha irmã só sabia nadar de colete. Estava tendo aulas para aprender (a nadar sem colete), mas ainda não tinha aprendido. Tanto que testemunhas disseram que ela se debateu por dois minutos antes de afundar. Não sei como foram deixar isso acontecer em uma seleção brasileira - disse, ainda bastante abalada e muito emocionada, Catusa Benedetti, 31 anos, uma das quatro irmãs da Dienifer.

Até o final de janeiro, a gaúcha vivia ao lado da família em Cachoeira do Sul (RS), onde representou por três anos a Associação Cachoeira de Canoagem e Ecologia (ACCE) em competições. Há cerca de um mês, Dienifer foi convidada para defender o Brasil na equipe júnior e precisou deixar sua terra natal para morar no alojamento da sede da seleção brasileira junto com outras seis atletas. Nesse curto período em São Paulo, de acordo com a CBCa, a atleta teve treinamentos diários de natação (realizados em piscinas) e já demonstrava bom desempenho. Ao ahe!, a assessoria da entidade explicou que o uso dos coletes salva-vidas não é obrigatório e que os atletas não utilizam o acessório para não atrapalhar nas performances.

Dienefer em ação - Foto: Arquivo pessoalNo entanto, segundo o item 3.2.4 do Regulamento da Canoagem Velocidade da Confederação Brasileira de Canoagem, "todo competidor deve saber nadar e, no caso de deficiência nesta habilidade, deve vestir colete salva-vidas".

- Esse item do regulamento da CBCa não se aplica nesse caso pelo fato de que ela sabia nadar. A família da Dienifer tinha conhecimento de que ela não sabia nadar enquanto estava lá (em Porto Alegre). Aqui (em São Paulo), ela estava treinando diariamente e já apresentava boa performance. Isso é assim (treinar sem colete) aqui no Brasil e na maioria dos países bem desenvolvidos na modalidade - informou ao ahe! a assessoria da CBCa.

Atleta pode ter se enroscado em árvore

A família D’Avilla Loreto garante que está tomando todas as providências para que sejam apuradas as responsabilidades. Catusa prefere não acusar ninguém, mas pede justiça. Até o momento, foram colhidos os depoimentos dos atletas que estavam presentes no dia do ocorrido e estão sendo analisadas as imagens de câmeras de segurança das casas que ficam às margens do Rio Guarapiranga, onde está situado o Yacht Club Paulista, parceiro da Confederação.

De acordo com uma fonte próxima à seleção brasileira ouvida pelo ahe!, Dienifer não teria alertado em momento algum aos profissionais da CBCa para o fato de que não sabia nadar. Nos treinos de técnicas de natação, inclusive, ela demonstrava ter certa noção. No entanto, como frisou a fonte, nadar em águas de rios é muito diferente de nadar em uma piscina. O mais provável é que a atleta tenha se enroscado em alguma árvore, já que, com a seca nos rios, devido à falta de chuva em São Paulo na época, o nível do Guarapiranga é baixo.

Família diz que atleta ainda estava aprendendo a nadar - Foto: Arquivo pessoal- No regulamento da CBCa, há uma regra que diz ser obrigatório o uso do colete. Mas, os atletas não usam por questão de ego, para não atrapalhar na postura e, consequentemente, no desempenho. Ela sumiu em frações de segundos, foi desesperador - disse a fonte, que preferiu não se identificar.

Além das contradições sobre as questões de saber nadar ou não e do uso facultativo do colete salva-vidas, ainda há o fato de que não havia um instrutor próximo à canoísta no momento do ocorrido e tampouco uma embarcação para protegê-la. O treinador principal, Marcus Ito, precisou ir ao hospital ver a esposa que estava grávida e perdeu o filho. Diante disso, apenas o auxiliar Waliton Cirilo de Oliveira cuidava das equipes masculina e feminina. Como foi informado pela assessoria da CBCa, Dienifer treinava em grupo, como era de costume. Apesar disso, ninguém viu quando o caiaque individual virou e a gaúcha se afogou. Após o contato que teve com os membros da comissão técnica da seleção, Catusa contou que Waliton admitiu estar distante na hora da tragédia.

- Ele (auxilar) nos disse que não sabia explicar o que tinha acontecido com a minha irmã. Ele falou que a Diefener estava treinando em uma margem e ele estava contando o tempo de outras atletas em outra margem. Houve uma falha. E essa falha precisa ser corrigida - cobrou Catusa.


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