Carlos Eduardo Novaes

De onde menos se espera...

Novaes enaltece Alexandra como a melhor jogadora do mundo de handebol
14/01/2013 15:30 - Atualizado em 14/01/2013 15:32
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Tem duas semanas escrevi uma crônica sobre as surpresas que historicamente pontuam nossos esportes olímpicos. Atletas desconhecidos do grande público que da noite para o dia surpreendem o país e ganham as manchetes esportivas do planeta. A surpresa da vez é Alexandra Nascimento, que abriu as portas da fama em uma modalidade pouco mais popular entre nós do que o hóquei sobre a grama. Este ano não deu Marta na escolha da melhor do mundo no futebol feminino, em compensação Alexandra abiscoitou o titulo de melhor do mundo no handebol.

Alguém aí que não seja do ramo nem parente de handebolistas já tinha ouvido falar nesta paulista de 31 anos que superou grandes atletas europeias – é na Europa que se joga o melhor handebol – na votação promovida pela Federação Internacional de Handebol? Tem muita gente que não sabe nem o que é handebol. Eu mesmo só vim prestar atenção no jogo depois que nos anos 80 namorei em Floripa uma gerente de banco que praticava o esporte. Morria de medo que algum dia ela brigasse comigo e me acertasse uma bolada daquelas.

O handebol ainda é um esporte que corre para – permitam-me a frase surrada – “conquistar seu espaço” no Brasil. A Confederação Brasileira de Handebol (CBHb – este “b” minúsculo é para diferencia-la da confederação de hipismo) só foi criada em 1979. Antes, o esporte ocupava uma salinha escura na CBD - hoje CBF – que cuida do nosso futebol. Perguntará você: e o que tem a ver o handebol com o futebol? Com certeza nossos dirigentes consideravam o handebol um futebol jogado com as mãos!

Nas Olimpíadas nunca chegamos próximo ao pódio. A seleção feminina estreou em Sidney (2000) ficando em 8º lugar. Nos Jogos seguintes em Atenas chegamos em 7º, em Pequim (2008) em 9º e em Londres, ano passado saímos nas quartas de final e ocupamos a 6ª colocação. Tal retrospecto no meu entender valoriza ainda mais a escolha de Alexandra que disputou o titulo com dinamarquesas - tricampeãs olímpicas (1996, 2000 e 2004) – e norueguesas, bicampeãs olímpicas (2008 e Londres), entre outras feras da Croácia e Montenegro. Foi mais ou menos como um jogador de futebol boliviano ser eleito o melhor da America Latina.

Os mais desconfiados dirão que a vitória de Alexandra foi um agrado ao país que sediará as próximas Olimpíadas. Pois saibam estes que a moça foi a artilheira do Mundial de 2011, em São Paulo e integrou a seleção de handebol dos Jogos de Londres, escolhida como a melhor ponta direita da competição. Não é pouca coisa para uma atleta de um país onde o handebol não desfruta da popularidade nem do profissionalismo dos europeus.

Desnecessário dizer que para chegar a este nível de atuação Alexandra teve que arrumar as malas para ir jogar na Europa. Mas não pensem que ela desembarcou na Escandinávia ou qualquer outro país de projeção no esporte. A moça foi bater na Áustria onde joga há oito anos em um clube de nome estranho: o Hypo Niederosterreich que ano passado acolheu outras oito jogadoras brasileiras. Foi lá, nas quadras austríacas, que Alexandra aperfeiçoou seu handebol, aliando a técnica às suas características naturais de força e explosão.

O sucesso de Alexandra vai fazer com que muita gente preste mais atenção ao handebol e certamente atrair outras jovens para o esporte que no Brasil já conta com cerca de 55 mil atletas cadastrados espalhados por 687 clubes e 7.774 equipes (dados de 2003). A desproporção entre equipes e clubes deve-se ao fato de o esporte – ao contrario da maioria deles - ser mais praticado nos colégios do que nos clubes. Por falar nisso, algum carioca aí sabe o nome de um clube brasileiro de handebol?

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

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