Carlos Eduardo Novaes

Olimpíada ameaçada

Em sua nova coluna, Novaes pede revisão na distribuição dos royalties de petróleo
19/11/2012 17:27 - Atualizado em 19/11/2012 17:35
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

O Estado do Rio de Janeiro encontra-se a beira do precipício. Caso não seja suspensa a tramitação do projeto de lei que altera a distribuição dos royalties de petróleo no país o Governo estadual terá que interromper as obras do Maracanã, do metrô no Leblon e – pior – desistir das Olimpíadas de 2016. Terá ainda que cancelar todos os investimentos em saúde, educação, saneamento e infraestrutura. Ou seja, o Haiti será aqui!

Se a presidente da República não der ouvidos aos nossos apelos – Veta Dilma! - não restará alternativa a cariocas e fluminenses que não seja a de proclamar a independência do Rio de Janeiro, se possível às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Por que não? Por muito menos outros estados já tentaram se emancipar do Brasil. Em 1640 os paulistas se propuseram a criar um reino independente aclamando o capitão-mor Amador Bueno rei de São Paulo. Não deu certo, mas se Amador Bueno tivesse subido ao trono São Paulo hoje seria uma prospera monarquia governada – quem sabe? – pelo Galvão Bueno.
 
Outros movimentos separatistas também deram com “os burros n’água” (para usar uma expressão do século XVIII). A Inconfidência Mineira, traída em seus ideais não conseguiu fazer de Minas Gerais um país independente. Tão pouco a Conjuração Baiana, conhecida como Revolta dos Alfaiates, alcançou seu objetivo de criar uma república na Bahia. Os pernambucanos, mais decididos, tentaram por duas vezes botar Pernambuco falando para o mundo (e para o vizinho Brasil). Em 1801 a Conspiração dos Suassunas pensou alto ao sonhar com um estado livre de Portugal sob a proteção de Napoleão Bonaparte. Mais à frente os pernambucanos voltaram à carga com a Confederação do Equador e chegaram a estabelecer – por pouco tempo – um governo republicano, mas o Império contra-atacou e eles não conseguiram a independência.

Na verdade o único movimento separatista que separou alguma coisa foi a Guerra Cisplatina, onde começou a tradicional rivalidade entre Brasil e Argentina que hoje se estende até ao futebol. A Inglaterra, dona do mundo na época, resolveu intermediar o conflito e, em 1828, anunciou que “nenhum dos dois vai ficar com a Província Cisplatina!” E naquele pedaço de terra nasceu a República Oriental do Uruguai.

Nem de longe pretendemos que a declaração de independência do Rio de Janeiro reproduza o grito do Ipiranga de 1822. Vivemos outros tempos e assim dispensaremos os cavalos e seguiremos montados em bikes para a borda da Lagoa. Na ausência do Governador, o brado retumbante partirá de Dom Pezão I, que antes de soltar o verbo pedirá aos presentes que desliguem seus celulares. Proclamaremos a independência durante um feriado prolongado para evitar os congestionamentos. A seguir fecharemos as fronteiras para os “estrangeiros” e os carros e ônibus que deixaram o Rio no feriadão. Se não conquistarmos a independência pelo menos vamos melhorar o trânsito no estado.

Instituiremos uma nova moeda, o real fluminense (algo como o dólar canadense), manteremos a bandeira já existente, convidaremos Zeca Pagodinho para compor nosso hino nacional e permaneceremos nos entendendo em carioques, idioma latino que se distingue do português falado por nossos vizinhos pelo “s” amassado no alto do palato.

Talvez tenhamos dificuldades em obter reconhecimento internacional, mas desde já contamos com o apoio do COI, da FIFA e das UPPs A Cidade Maravilhosa voltará a ser a capital federal e caso o Espírito Santo queria aderir a nossa causa o país passará a se chamar República do Espírito do Rio Santo de Janeiro. Ultimo aviso: não forneceremos visto de entrada – nem no Carnaval – a nenhum parlamentar que tenha votado a favor do projeto de lei que pretende saquear nossas riquezas. Independência ou Royalties!

OBS. Segunda-feira próxima, dia 26, temos um encontro marcado às 14hs em frente à Igreja da Candelária para mostrar ao mundo que estamos dispostos a marchar até a Cinelândia em defesa dos nossos direitos. O petróleo é nosso e ninguém vai deixar o Rio de Janeiro de barril vazio (no passado dizia-se de “pires na mão”).


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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira