Performance

Passaporte Biológico contra o doping

Documento reúne características dos atletas e torna-se uma importante ferramenta para encontrar irregularidades nas competições
09/10/2012 15:18 - Atualizado em 09/10/2012 15:38
Por Natália da Luz
RIO

O passaporte reúne as principais informações de um cidadão. Ele é a chave para cruzar fronteiras e provar uma identidade. Seguindo a ideia de identificar um atleta, foi desenvolvido no esporte o Passaporte Biológico, que traça um perfil voltado para auxiliar no combate ao doping

- O conceito de Passaporte Biológico do Atleta (ABP) surgiu como método de controle antidoping a partir de 2008, com a adoção de testes sanguíneos para detectar a possibilidade de doping por agentes estimulantes da eritropoiese (processo de formação e desenvolvimento das células vermelhas que transportam oxigênio) – conta em entrevista ao ahe! o bioquímico Lázaro Nunes, completando que, antes mesmo de 2008, a União Internacional de Ciclismo (UCI) já usava uma forma semelhante.
 

Segundo o especialista, o tipo de doping sanguíneo era mais frequente entre os atletas de ciclismo e, por isso, as primeiras tentativas foram registradas na modalidade através da determinação do hematócrito (porção sólida do sangue, que é constituído principalmente por células vermelhas) dos competidores.
 

- Existia um limite máximo para esta análise. Assim, quando os valores estavam acima deste limite, o atleta era proibido de competir por suspeita de estar utilizando doping sanguíneo. Entretanto, não era algo 100% garantido, visto que este tipo de análise não levava em consideração a etnia e nem se o atleta passou por locais de altitude elevada – explica o doutor em Bioquímica do Exercício.
 

Lazaro durante uma de suas análises - Arquivo PessoalO Passaporte do Atleta é mais completo graças à tecnologia de um software de computador que gerencia e aplica testes estatísticos nos resultados dos atletas. Os testes são feitos em laboratórios credenciados em todo o mundo. No Brasil, há apenas dois com a capacidade para tal: um no Rio de Janeiro e outro em Brasília. Lazaro destaca que, com o "passaporte", a maneira de controle antidoping foi modificada, submetendo o atleta a testes comuns, como por exemplo o hemograma (exame que avalia o número de células brancas e vermelhas no sangue).
 

O documento monitora os parâmetros biológicos (através de amostras de sangue e de urina) que, de forma indireta, possam revelar os efeitos da utilização de substâncias ou métodos proibidos. O monitoramento destes parâmetros ao longo de uma carreira desportiva tornará praticamente impossível a utilização de determinados tipos de substâncias e de métodos proibidos. Estes dados incluem também variáveis heterogêneas como etnia, sexo, idade e exposição à altitudes elevadas. Os dados arquivados fornecem informações sobre o perfil hematológico do atleta em períodos de treino e competições.

 

Análises por exame de sangue ou urina 
 

Segundo Lazaro, a WADA (Agência Mundial Antidoping), que é o órgão que regulamenta e testa os atletas, possui atualmente duas modalidades de ABP. Um deles testa através do hemograma a possibilidade de uso de eritropetina recombinante (hormônio que estimula a produção de células vermelhas) ou de agentes estimuladores da formação de células vermelhas. O outro, feito através de exames de urina, verifica a utilização de esteróides.
 

Maratona Internacional - MBragaComunicacao- A eritropoetina, substância utilizada para aumentar a quantidade de células vermelhas e que é mais utilizada por atletas que buscam aumentar o transporte de oxigênio, é rapidamente eliminada da circulação. Se estivermos pesquisando esta substância, é necessário coletar a amostra biológica bem próximo do momento de uso. No caso do passaporte biológico, como ele evidencia os efeitos na eritroproetina no sangue do indivíduo, acaba sendo mais efetivo, pois o efeito perdura por dias.

 

Alerta para provar alterações

Essas análises alertam quando existe uma variação muito grande e que sai dos valores normais propostos para o atleta. O passaporte pode provar ilegalidades por meio de alterações anormais detectadas no perfil do sangue de cada competidor, mesmo sem ele apresentar a substância. Lázaro enumerou algumas dessas substâncias ao ahe! como a insulina, testosterona, estimulantes do sistema nervoso central (como anfetaminas e cocaína), hormônio do crescimento e até medicamentos diuréticos (que não são para melhorar a  performance, mas ajudam a eliminar a substância dopante).
 

Atleta português Helder Ornelas punido com os dados do Passaporte Biológico - AFP Em maio deste ano, um corredor português foi o primeiro atleta suspenso por doping pelo sistema. Helder Ornelas, de 37 anos, foi banido por quatro anos pela federação de seu país.  A IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) não revelou qual era a substância, mas disse que as amostras de sangue de Ornelas, que disputou os 5000m nos Jogos em Pequim, foram coletadas num período de 11 meses, a partir de dezembro de 2009.
 

Um mês antes da Olimpíada de Londres, as corredoras russas Evgeniya Zinurova, Nailya Yulamanova e Svetlana Klyuka foram suspensas por mostrarem dados diferentes de seus passaportes biológicos. Nailya Yulamanova, por exemplo, perdeu a medalha de ouro conquistada em prova de 2010 e teve seus resultados, a partir de 20 de agosto de 2009, apagados. Zinurova teve o seu título europeu de 2011 nos 800m retirado, e Klyuka teve todos os resultados a partir de 15 de agosto de 2009 cancelados. 


Na Olimpíada de Londres, vários atletas que disputaram a Olimpíada faltaram aos exames de sangue antidoping. A equipe avaliou eficácia dos testes e percebeu incoerências no passaporte biológico. Esses resultados ainda estão em análise.
 

Apesar de o futebol não ser um esporte onde há muitos registros de doping, a Fifa já anunciou que vai usar o recurso na  Copa das Confederações de 2013 e na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O órgão também vai continuar a exigir a realização de exames cardíacos e ortopédicos, antes de toda competição internacional.


compartilhar no