Atletismo

A base do atletismo dos Estados Unidos

Mechelle Lewis conta ao ahe! sobre o processo que leva seu país ao sucesso no quadro de medalhas. A prática nas escolas é o grande segredo da hegemonia
14/09/2012 13:07 - Atualizado em 14/09/2012 13:42
Por Natália da Luz
Londres - Inglaterra

A mistura de investimento com habilidade dá aos Estados Unidos uma posição vantajosa no quadro de medalhas. Além do basquete e da natação (que saiu da Inglaterra com 30 medalhas), há uma modalidade que corre para o pódio. Essa força vem do atletismo, que, em Londres, conquistou 29 medalhas, sendo 9 de ouro, 13 de prata e 7 de bronze. Em Londres, a medalhista estadunidense Mechelle Lewis falou com o ahe! sobre o país que mais coleciona medalhas no atletismo.


A atleta que corria nos 100 metros e no revezamento 4x100 nasceu em Maryland, nordeste dos Estados Unidos, tem uma lembrança positiva do Brasil. Ela conquistou duas pratas (nos 100m e 4x100m) no Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro, além do título de campeã mundial da categoria no mesmo ano. Em 2008, foi o auge da sua carreira com uma participação em Pequim, o destino bem-sucedido de uma estrada que começa na escola.

- Eu acredito que os Estados Unidos sejam tão fortes no atletismo por causa do investimento que temos no estágio inicial, lá nas escolas. Há muito suporte, estímulo e locais para treinar – afirma Mechelle, durante o treinamento na Academia Powerade, montada em Londres para receber atletas amadores durante a Olimpíada.

Mechelle Lewis em treinamento na Academia Powerade - Jon Buckle As 29 medalhas foram parte das 104 que o país líder noranking da Olimpíada de 2012 conquistou. Na modalidade do atletismo, Rússia ficou em segundo lugar com 18, sendo 9 de ouro, 13 de prata e 7 de bronze, e a Jamaica, de Usain Bolt e Yohan Blake, com 12 medalhas.
 

A Olimpíada serviu também para reafirmar a hegemonia do país e consagrar Bolt, o jamaicano que superou novamente a sua própria marca e quebrou o recorde olímpico com 9s53 nos 100 metros. Apesar de uma maior exposição do atletismo em 2012, Mechelle é totalmente parcial quando pensa em Pequim, Olimpíada que ela competiu nos 4x100 metros ao lado das atletas Angela Williams, Torri Edwards e Lauryn Williams.


- Não dá para comparar a sensação de duas Olimpíadas quando estamos em uma delas. Londres foi muito importante para o atletismo, mas em Pequim, eu estava lá!, brinca Mechelle, apenas um exemplo dentre os milhares de atletas que passaram a vida no esporte e na educação bem próximos..


- Para ter sucesso no atletismo, é claro que você precisa correr; mas você também precisa treinar muito, se preocupar com a nutrição e com os aspectos psicológicos. Você vai competir com os melhores do mundo e décimos de segundos podem dar o ouro a outro atleta – exemplifica a hoje treinadora com 32 anos, completando que essa seria a grande dificuldade e característica do atletismo.

- Você vai lá e corre o seu máximo, mas, às vezes, não adianta porque milésimos de segundos podem fazer a diferença. 

O caminho que Mechelle e os jovens dos Estados Unidos seguem poderia inspirar o Brasil, que teve um desempenho além do esperado no atletismo paralímpico (com 7 ouros, 8 pratas e 3 bronzes), mas ainda muito fraco na Olimpíada, o país não conquistou uma única medalha. 


O bom exemplo para o Brasil

Prova de atletismo no Estádio Olímpico - Kerindê SousaCada país tem a sua particularidade quando se trata do biótipo. A Jamaica é a tribo da velocidade; o Quênia, uma fábrica de fundistas; e os Estados Unidos, a habilidade que se propaga pelas muitas categorias do atletismo. Mas, o talento não anda sozinho. Ele também se alimenta de investimento; e onde o dinheiro é escasso, entra a educação como condutor dos jovens talentos em potencial. No Brasil, tanto o investimento quanto a educação representam grandes desafios.

- A ausência de uma política nacional de desenvolvimento do atletismo é a grande barreira para alavancar o esporte. No Brasil, a tributação é muito centralizada e acaba sobrando muito pouco para o esporte e menos ainda para o atletismo – conta Paulo Roberto de Oliveira, professor da Unicamp e integrante do corpo docente da Academia Brasileira de Treinadores do Instituto Olímpico Brasileiro. Ele ainda ressalta que a Confederação de Atletismo deveria dar mais atenção aos torneios escolares, já que a formação de um representante do atletismo leva cerca dois ciclos olímpicos, ou seja, oito anos.

Por conta da quantidade de problemas, principalmente na área da educação, o Brasil enfrenta dificuldades para estabelecer um programa que valorize o esporte nas escolas e a formação de treinadores, um déficit que também precisa de alguns anos para se recuperar.

- Muitos profissionais da área de Educação Física desconhecem a própria modalidade em que trabalham, como no lançamento de martelo, uma categoria do atletismo bem praticada pelos jovens dos Estados Unidos, mas ainda ignorada por aqui. No sul do país, temos um biótipo (mais alto) que favorece a prática dessa categoria, mas há pouca divulgação, envolvimento e programas voltados para isso.

Prova de atletismo no Estádio Olímpico - Kerindê Sousa

Roberto lista algumas prioridades como: a valorização do profissional, o investimento em infraestrutura e maior atenção à realização dos Jogos Escolares. O foco em Jogos Escolares funciona como um caça-talentos, já que não há um programa oficial que se dedique a descobrir esses atletas espalhados pelo Brasil.
 

 - O atletismo fica muito dependente de eventos. É preciso ter pessoas para fazer a triagem de novos talentos. Os que ganham destaque são aqueles que, geralmente, ficam em primeiro lugar em torneios e competições escolares. Mas isso não garante que esses sejam os melhores que temos.

Nesta quinta-feira, o governo apresentou o Plano Brasil Medalha, projeto de investimentos que destina R$ 1 bilhão para o desenvolvimento do esporte brasileiro até 2016.  Para conseguir a nova Bolsa de até R$ 15 mil, o atleta deve estar entre os 20 melhores no ranking mundial. A iniciativa é positiva, mas chega a menos de quatro anos da Olimpíada 2016. 
 
- Em curto prazo, não faremos nada. Precisamos de um planejamento que se concentre nas escolas, na base e na formação dos treinadores para além da Olimpíada de 2016. 


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