Carlos Eduardo Novaes

O cego Ray Ban

Personagem de 'Menino Sem imaginação' dá uma aula sobre as Paralimpíadas
10/09/2012 17:38 - Atualizado em 13/09/2012 08:54
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Encontrei o cego Ray Ban, personagem do meu livro “O Menino Sem Imaginação”, balançando o corpo na banqueta do seu piano (ele se mexe como seu xará, Ray Charles), mais alegre do que pinto no lixo.

- A que devemos tamanha alegria, Ray? Acertou a megasena?

Ele correu os dedos pelas teclas:

- Você viu? Você que enxerga tudo, viu? Chegamos em sétimo lugar!!

A ficha não caiu e perguntei:

- Um sétimo lugar merece tanta alegria?
- Muito mais do que o 22º lugar nas Olimpíadas!

Só então me dei conta de que Ray se referia ao resultado das Paraolimpíadas onde o Brasil conquistou 43 medalhas (21 de ouro), superando Alemanha, Coreia, Itália, França...Diante de tanta euforia perguntei se ele tinha algum amigo ou parente participando dos Jogos.

- São todos meus irmãos. Conheço apenas os ceguinhos do futebol de Cinco, conheço de vista...
- De vista? Como?
- De vista é modo de dizer, cara – reagiu Ray com seu proverbial mau humor – Treinei com eles no passado mas desisti e me dediquei ao piano. As teclas são mais fáceis de encontrar do que a bola. Sabia que eles são tricampeões dos Jogos?
- Um belo exemplo para o nosso futebol de Onze!
- Não só eles – emendou Ray – Meus irmãos têm ganhado muito mais medalhas do que esses atletas inteiros que disputam as Olimpíadas!
- Não é vantagem – contestei – Esses Jogos distribuem muito mais medalhas do que as Olimpíadas.

Ray irritou-se e enfiou as mãos nas notas graves do seu piano.

- Você quer desmerecer meus irmãos? É isso? Distribuem mais medalhas, mas são todas de ouro, prata e bronze. Não há medalha para o quarto lugar, nem o quinto. Se meus irmãos não fossem bons não chegariam a elas. O desempenho deles é sete vezes melhor do que dos seus atletas que só tem olhos para a grana e o sucesso.
- “Meus atletas”? Por que “meus atletas”? São todos brasileiros!

Ray fez um sinal para que eu me sentasse ao seu lado, no piano, e indagou desafiador:

- Você assistiu às Olimpíadas?
- Toda. Todinha. Até parei de trabalhar durante os Jogos para poder ver tudo.
- E quanto aos Jogos dos meus irmãos? Viu alguma competição?
- Nada. Nadinha.
- Tá vendo! É por isso que separo os meus irmãos dos seus atletas.
- Até tentei assistir um jogo de futebol de cinco, mas mudei de canal. Ficava na maior aflição vendo os atletas chutando o vento...
- Com certeza morria de pena. Pena dos coitadinhos, não é? Você é igual aos outros! É por isso que as empresas privadas resistem em patrocinar nossos Jogos. Acham que estão fazendo caridade...

Enquanto ouvia Ray, passei a brincar com as teclas do piano. Ele estava revoltado com “a merreca” que o Comitê dos seus irmãos recebe, perto da grana preta que vai para os cofres do Comitê Olimpico.

- Ficamos com 15% da Lei Piva, os outros 85% vão para os seus atletas!
- Isso só valoriza o feito dos seus irmãos!
- Se Deus quiser em 2016 vamos chegar em quinto lugar...
- Os olímpicos estão pensando em ficar entre os 10 primeiros.

Ray deu um sorrisinho irônico:

- Atrás da gente. Você não acha que aqui no Rio, em função das performances, as Olimpíadas deveriam vir depois das Paralimpiadas?
- É Paraolimpíada! – corrigi
- Não. É Paralimpiada! – insistiu ele
- Quem disse?
- O Comitê Paralimpico Internacional! O nome mudou desde novembro passado para ficar igual ao dos outros países de língua portuguesa. Tá vendo como você é igual aos outros? Não sabe nem o nome do evento!!!

E fechou a tampa do piano em cima dos meus dedos.

Veja mais:

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Quem inventou o esporte?

O grito olímpico

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira