Atletismo

'O atletismo brasileiro cresceu, mas ainda precisa de qualidade', diz Zequinha Barbosa

Em Londres, ahe! entrevistou o maior participante do atletismo brasileiro em Olimpíadas. Ele defende a valorização da modalidade e da educação física nas escolas
23/08/2012 13:15 - Atualizado em 23/08/2012 15:36
Por Natália da Luz
Londres - Inglaterra

Em 23 anos de carreira, ele correu 160 mil quilômetros, o equivalente a 150 quilômetros por semana ou, como gosta de comparar, a quatro voltas na Terra na linha do Equador. É muita estrada para Zequinha Barbosa, o representante do atletismo brasileiro que mais frequentou as pistas olímpicas. Com um histórico de dedicação ao atletismo, ele participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos acompanhando o amadurecimento do esporte que, para ele, ainda precisa crescer no Brasil

- Hoje, eu vejo a importância que o esporte tem na escola. Eu digo que o esporte tem que estar onde a criança estiver. No Brasil, isso não funciona muito bem. Nos Estados Unidos, eu vejo eles fazendo isso porque é dali que você vai tirar os atletas do futuro - conta em entrevista ao ahe! o técnico que trabalha com condicionamento de alto rendimento em San Diego, nos Estados Unidos.

Para ele, a diferença do atleta brasileiro para os de outros países está no trabalho, na intensidade e na qualidade do treino. Ele não se esquece das 600 abdominais por dia e dos treinos - sem folga - que iam de segunda a segunda. Zequinha disputou as provas de atletismo em uma época em que a ciência do esporte ainda não oferecia essa quantidade de soluções para o aprimoramento da performance. Em terras brasileiras, o patrocínio era quase uma ilusão e, ainda assim, era preciso saltar sobre esses obstáculos e superar esse déficit, em nome do sonho de chegar ao pódio.

- O que precisamos hoje é da qualidade para o atleta chegar mais forte. Quando você quer que seu filho seja médico, engenheiro, você investe. Para ser atleta é a mesma coisa: é preciso investir. Isso leva à valorização da educação física nas escolas. Lá, eles têm a consciência de que, se eles correrem bem ou praticarem atletismo, vão estudar em uma boa escola, em uma boa universidade - compara, destacando que educação e investimento são os pilares de uma política bem-sucedida.


Zequinha Barbosa, que lista a Olimpíada de 1984 como a mais importante para o atletismo brasileiro (por reunir ele, Joaquim Cruz e Alberto Guimarães), era especialista nas provas de 800 metros rasos. Em 1987, ele foi bronze no Mundial de Roma. Quatro depois, ganhou a prata em Tóquio. Hoje, ele prepara e treina os atletas de escolas em San Diego e estimula na garotada o sonho de ir à Olimpíada.


Bolt e o Neymar

Aos 26 anos, Usain Bolt é o maior ídolo não apenas do atletismo, mas do esporte, capaz de inspirar jamaicanos e atletas do mundo todo! Entrou para a história das Olimpíadas e não apenas do evento esportivo. O talento e a paixão dele inspiram, independentemente da relação com o esporte. Mas ele não surgiu há pouco: como lembra Zequinha Barbosa, o jamaicano mostra resultados impressionantes há tempos. 



Bolt durante a Olimpíada de Londres - AFP- O Bolt, com 16 anos, era o que o Neymar é hoje. As pessoas não davam atenção para ele, mas ele sempre existiu. Aos quinze anos, ele ganhou uma medalha de ouro e duas de prata no Campeonato Mundial de Atletismo júnior, na Jamaica - conta Zequinha, lembrando que, na época, ele já tinha recebido o apelido de homem mais rápido do mundo com 19,75 segundos para os 200 metros e 9,76 segundos para os 100 metros.


Na Olimpíada de Pequim 2008, Bolt venceu os 100, 200 e o revezamento 4x100 metros, quebrando os recordes mundiais das três provas. Seis anos antes, em 2002, ele já garantira duas medalhas de prata no Campeonato Mundial da Jamaica. Zequinha acredita que, se ele estivesse no futebol, todo mundo o teria conhecido há tempos. 
 
- No basquete e no futebol, você consegue criar uma imagem, ver a cesta, o gol, o lance. Agora, quando o Bolt corre 20s21 ninguém entende. Só quem está dentro do atletismo é que sabe a importância dessas marcas e recordes - afirma o meio-fundista, que foi rankeado entre os melhores atletas do mundo. 


Zequinha, o terceiro atleta de mais conquistas de resultados da história dos 800 metros, também considera Bolt um fenômeno. Em relação aos recordes e marcas alcançadas a cada ciclo olímpico, ele não acredita em um limite. Ele acha que é sempre possível fazer mais.
 

Aulas de atletismo na Academia Powerade, em Londres - John Buckle
- O recorde pode demorar para ser quebrado. Eu acho que não tem como determinar isso. Pode sempre vir alguém e fazer melhor. Eu lembro que quando Bob Beabom saltou 8,90 m (no salto em distância) na Olimpíada de 1968, todo mundo falou que ele havia chegado ao máximo, que depois disso ele iria quebrar as pernas; depois, o recorde foi batido - conta o brasileiro convidado para ser o treinador de atletismo da academia Powerade durante a Olimpíada de Londres .

O saltador norte-americano havia feito 8,90 após o recorde de 8,35m. Por 23 anos, ele foi o recordista, antes de Mike Powell saltar 8,95. Quem não foi ultrapassado ainda é Sergey Bukka, atleta de salto com vara que saltou 6,14m.

- O recorde é difícil de ser batido. As pessoas vão tentar quebrar. Fisiologicamente, ainda existe espaço para o ser humano progredir. Sempre vai nascer alguém que vai tentar bater esse recorde.


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