Londres 2012

Esporte e cultura: a estreia feminina de países conservadores em Londres 2012

Participação de Brunei, Arábia Saudita e Catar é vitória para as equipes femininas. Novidade abre portas para integrar as culturas e flexibilizar costumes
03/08/2012 07:02 - Atualizado em 03/08/2012 09:46
Por Natália da Luz
RIO!

A Olimpíada é o momento em que os atletas superam limites que o próprio corpo desconhece. Neste ano, evidencia-se a presença de atletas femininas. As deusas do esporte aumentaram a sua participação, inclusive quebrando barreiras que antes pareciam intransponíveis. Em Londres, o esporte venceu o obstáculo da tradição em Brunei, Catar e Arábia Saudita, que, pela primeira vez, levam mulheres à edição dos Jogos Olímpicos.
 

- A China é comunista, mas somente na questão da autoridade. No que se refere ao mercado, ela assimilou totalmente o sentido do sistema capitalista e competitivo. O mesmo podemos dizer da Rússia. Em relação aos países árabes, alguns estão se abrindo não necessariamente pela questão religiosa, mas pela questão financeira - disse em entrevista ao ahe! o sexólogo e doutor em pesquisas de gênero pela Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul), Mario Ribas.
 

Para o especialista, existe um problema mais cultural do que religioso, já que, em alguns países islâmicos, não existe um controle mais efetivo sobre o corpo das mulheres. Por outro lado, em outras nações, o controle é tão rigoroso que, para quem está longe, reforça-se o estereótipo da invisibilidade em relação ao sexo feminino.
 

Polêmica do véu islâmico no tatame
 

Mapa do Oriente Médio com Arábia Saudita e Catar em evidência - AHE!A Arábia Saudita, um dos países mais conservadores do Oriente Médio, levará Wojdan Ali Seraj, do judô, e Sarah Attar, que participará da prova de 800 metros rasos. As duas não tinham marca para participar da Olimpíada, mas receberam convites especiais do Comitê Olímpico Internacional. Apesar da polêmica envolvendo a participação da judoca peso-pesado por conta do uso do hijab, o véu islâmico, ela pisará no tatame levando a bandeira saudita. O país é o terceiro no ranking dos mais sedentários, segundo pesquisa divulgada pela revista científica Lacet no último dia 18. O percentual do país é de 68,8%, atrás de Malta com 71,9%, e do africano Suazilândia, com 69%.
 

A nação que já teve o técnico Carlos Alberto Parreira à frente de sua seleção principal masculina de futebol dá um passo largo para abrir novas portas para a igualdade entre homens e mulheres. Economista e empresário no mundo árabe, Salim Mahomood acredita que sociedades conservadoras têm um comportamento diferente do ocidente. O que muita gente acha repressão, para eles pode ser simplesmente uma forma de vida mais tímida e reservada.
 

- A participação em eventos esportivos vai interferir diretamente na autoestima das mulheres desses países e, principalmente, da Arábia Saudita. Os homens, de uma forma geral, apoiam essa nova etapa de ter mulheres competindo em fóruns internacionais, desde que elas sigam a conduta muçulmana - destaca ele em entrevista ao ahe!.


Mulçumano, Salim lembra que sua religião promove a prática dos esportes e o respeito às mulheres, diferentemente do que é disseminado por leigos.
 

- O profeta Maomé encorajava os companheiros a disseminarem o esporte na sociedade. Não existe proibição na nossa religião. É apenas uma questão de hábito que fará muito bem às mulheres, se for consolidado.


A estreia de Brunei
 

Brunei: a ilha do petróleo no sudoeste asiático - AHE!De Brunei, um país do sudeste asiático, ex-colônia britânica, vem Maziah Mahusin para correr os 400 metros, após o convite do COI. O país de 5765 quilômetros quadrados, independente desde 1977, explora petróleo e gás natural, que garantem à sua população uma das maiores rendas de toda a Ásia. Segundo dados do FMI, ele é classificado em 5 º no mundo em produto interno bruto per capita, em paridade de poder aquisitivo. Por lá, a tradição islâmica é seguida à risca, com direito à polícia religiosa para investigar se os costumes religiosos são cumpridos.

 


Dos estreantes, Catar é o país com o maior número de atletas
 

Com 11.437 km2, o Catar,vizinho da Arábia Saudita, abrigará a sede da Copa de 2022, posto conquistado em 2010 após vencer Estados Unidos, Austrália ,Coreia do Sul e Japão. O país que investe pesado no futebol, inclusive na experiência de nomes da modalidade brasileira como Paulo Autuori e Caio Junior, levará a nadadora Nada Arkaji, a velocista Noor al-Malki, a mesatenista Aya Magdy e a atiradora Bahiya al-Hamad, que foi porta-bandeira do país na abertura da edição 2012.
 

A velocista Noor al-Malki em estreia olímpica pelo Catar - Divulgação Apesar de possuir apenas 1,6 milhões de habitantes (a proporção da população, por sexo, é de 75,6% masculina e 24,4% feminina), o Catar tem fama por investir e sediar grandes eventos esportivos. Quem acompanhou muitos deles foi o holandês Gerard Lenting, técnico da equipe Powerade de atletismo, no Rio de Janeiro .
 

- O Catar tem muita estrutura para os esportes. O esporte por lá é um grande negócio que movimenta o turismo e o consumo. Espectadores e atletas de toda a parte do mundo vão para lá. Mas a prática em si não está em primeiro plano - conta ao ahe! o preparador que passou três anos no Catar como técnico do atletismo.
 

Ele destaca que, na infância, as mulheres são muito mais ativas no quesito esportivo. Mas, entre a adolescência e a fase adulta, outras prioridades passam a tomar conta do dia delas.
 

- A dedicação à família e ao lar toma todo o tempo, e o esporte perde todo o seu espaço. Os papéis do homem e da mulher são muito bem definidos lá. A mulher é importante e tem papel-chave nos assuntos relacionados à casa. Acho que seria uma questão de adaptação e flexibilização da cultura dar continuidade à preparação delas - completa.


Nada Arkaji, nadadora do Catar, durante o torneio - Divulgação Em comunicado exclusivo ao ahe!, a assessoria de comunicação do Comitê Olímpico de Catar disse que a estreia na Olimpíada é como uma medalha de ouro para as mulheres que praticam e querem praticar esportes como atletas.
 

- Temos encorajado a participação feminina nos esportes em geral. Por aqui, as mulheres são livres para praticar diversos programas esportivos, e que a ida à Londres é também resultado de suas habilidades em modalidades como o tiro esportivo e natação.
 

O comitê tem como objetivo criar cursos, torneios, estimular a participação feminina e aprimorar suas habilidades. Tal participação vem ganhando força entre as mulheres. Uma prova disso é a presença em eventos regionais e internacionais.
 

A mesatenista Aya Magdy, do Catar, em estreia olímpica - DivulgaçãoEssa participação pode ser um novo caminho para a integração maior com as culturas mais ocidentais. Mario lembra que, se tratando de alguns países islâmicos, alguns deles, como o Marrocos, relaxaram em algumas regras quanto às vestimentas femininas. Apesar de a sociedade estar em constante transformação, esse movimento nos países Árabes tem sido mais lento. De qualquer forma, é uma trajetória natural que irá acontecer.
 

- A Olimpíada é um evento de confraternização mundial que consegue reunir países que nem mesmo a ONU não consegue. Acho que a organização poderia ser mais flexível e sensível nessas questões religiosas, mesmo que, para isso, criasse eventos paralelos para agregar todo mundo, como as mulheres que tem potencial para competir, mas não podem, devido às regras de vestimentas impostas por seus líderes políticos/religiosos. A sociedade está em constante transformação. Seja rápido ou devagar, essa mudança irá acontecer, principalmente pelo acesso aos meios de comunicação que fogem aos controles dos governantes.

 

Participação feminina é maior na história dos jogos olímpicos


Na Olimpíada 2012, 116 anos após a primeira edição, são esperados cerca de 15.000 atletas que disputarão 39 modalidades. Em Atenas 1896, foram 241 atletas – homens – de 14 países, divididos em nove modalidades.
 

Em Atlanta 96, 26 países não tinham representantes femininas. Na última, em Pequim, apenas três delegações não levaram atletas mulheres. Hoje, assistimos a um grande salto: Rússia, China e USA, por exemplo, terão mais mulheres do que homens.
 

Dos 259 atletas brasileiros em Londres, 123 são mulheres. Um número que revela o equilíbrio entre os sexos na 30ª Olimpíada da história. Em 1932 (Los Angeles), a nadadora Maria Lenk foi a primeira representante brasileira em edições olímpicas. Em 1956 (Melbourne), a saltadora Maria Proença foi a única mulher da delegação brasileira. Em Roma, a responsabilidade foi toda em cima de Vanda dos Santos e, em Tokyo, da Ainda dos Santos. A partir de 68 (Cidade do México), o Brasil levou o grupo. A medalha de veio apenas em Atlanta 1996, com o vôlei de praia com Jacqueline Silva e Sandra Pires (ouro) e Mônica Rodrigues e Adriana Samuel (prata).


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