Atletismo

Inspiração londrina para Rio 2016

Equipe de jovens talentos do atletismo vai à Londres para treinar e assistir à Olimpíada. Juntos desde janeiro, os atletas do time prometem medalhas daqui a quatro anos
03/08/2012 15:38 - Atualizado em 03/08/2012 16:17
Por Natália da Luz
RIO

Eles têm características físicas distintas e habilidades particulares, mas em uma coisa são iguais: compartilham o sonho de ser medalhista na Olimpíada Rio 2016. Para isso, treinam intenso, duas, às vezes, três vezes ao dia e seguem à risca todas as recomendações. A caminho de Londres, para já se ambientarem ao espírito olímpico, o ahe! foi conferir um treino de quem pensa na frente e com ambição dourada.


- Nós temos a melhor estrutura, todo o cuidado que um atleta precisa ter para seguir com foco em alto rendimento. Se a gente fizer tudo direitinho, eu não tenho dúvida de que sairão muitos medalhistas daqui – disse ao ahe! Kerindê Brites, o superatleta de 18 anos da Powerade, que treina para a prova do decatlo (que reúne 10 modalidades distintas do atletismo - como o salto triplo, arremesso de peso e dardo).

Kenridê, que está a caminho de Londres ao lado de mais dois atletas da equipe (todos maiores de idade), mistura altura com velocidade, arremesso, corrida com barreiras (físicas e psicológicas) e tudo mais o que faz dele uma promessa para o decatlo, prova que leva dois dias para ser cumprida e que, ao final, não convida para a volta olímpica apenas o primeiro colocado. 

- Nesse esporte, todos nós somos vencedores. Ele é mais completo. Imagina passar esse tempo todo competindo? A vitória é coletiva! - afirma, completando que ainda acha cedo para falar em medalha.

- Mas farei de tudo para estar no pódio em 2016. Esse é o meu objetivo, conta Kerindê, que significa segundo filho em ioruba (língua africana de origem nigero-congolesa muito falada no sul do Saara), durante o treinamento no Estádio Célio de Barros, no Rio de Janeiro.

Muito além de 2016

Oficialmente, o ciclo olímpico de 2016 ainda nem começou, mas eles já pensam, comem e sonham como grandes atletas. Na hora do almoço, ignoram o banquete e se servem apenas daquilo que o organismo e a mente precisam para suar na pista de atletismo. É a energia que leva a equipe para frente, ultrapassando barreiras e oferecendo aos atletas as condições que eles precisam para competirem internacionalmente.

- A gente precisa de uma boa base porque uma equipe bem preparada faz diferença. Ter nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta... No final, o resultado é a soma de vários detalhes, e quem tiver dado mais atenção aos detalhes ganha – conta a irmã gêmea de Kerindê, sobre o programa que cuida de sua alimentação, preparação, vestuário, educação e saúde, além do salário (uma bolsa 3 x superior aquela praticada no mercado).



Dandadeuá (deusa das águas em ioruba, língua de sua tataravó, que nasceu na Nigéria) é como uma profissional contratada pela equipe Powerade. Ela precisa trabalhar com empenho, cumprir funções e bater metas, assim como em qualquer empresa. Na pista, ela é atleta de velocidade, mas não apenas isso. Ela também trabalha a resistência em seus treinos e salta as barreiras na categoria 400 metros com barreiras.

- Eu treino desde os 12 anos. Passei por várias provas até chegar aos 400 com barreiras. Eu me encontrei aqui. Quando eu me vejo chegando perto da barreira, dá aquele frio na barriga... Mas eu passo! Se cair, já era a competição, e se derrubar a barreira, além do abalo físico, tem o psicológico – ressalta a atleta sobre o receio que afeta todos da modalidade.

Técnico do atletismo na Holanda e no Catar, o holandês Gerard Lenting veio para o Brasil para usar a sua vivência na Europa e Oriente Médio, encontrando um modelo que se encaixe melhor ao nosso biótipo e comportamento. Ele está encontrando. Foi unanimidade entre os atletas quando perguntados sobre o desempenho após a chegada (há pouco mais de um mês) do técnico gringo, que fala muito bem o português.


Gerard e Maria durante o treino - AHE!- Esse grupo é muito bom para a gente pensar no futuro. Vamos trabalhar eles para os próximos anos. Atletismo é um esporte individual, que precisa ter uma estrutura alterada para cada prova. É um treinamento demorado. Por isso, temos que penar em quantidade, para depois trabalhar a qualidade, falou Gerard em entrevista ao ahe!


Durante a temporada de três anos no Catar, as metas com a equipe de atletismo eram diferentes daquelas que ele buscava na Holanda. No Brasil, para certas categorias, ele lembra que precisamos dar tempo ao tempo.

- Em provas mais fáceis, você consegue preparar o país em três anos. Nas provas mais difíceis, ou seja, aquelas combinadas, temos um tempo de amadurecimento mais lento. De qualquer forma, em quatro anos, com a dedicação desses jovens, é possível transformar esses campeões em medalhistas.

O salto com vara me escolheu

Maria izabel, atleta de salto con vara - DivulgaçãoModalidade incomum do atletismo para quem vive no Rio de Janeiro, Maria Izabel gosta de dizer que o esporte a escolheu, quando ela nem fazia ideia do que era o salto com vara...

- Eu não gostava do heptatlo. Então, a minha técnica disse que, se eu saltasse 2,50 metros, poderia sair da prova antiga. E foi isso o que aconteceu. Fui para o Campeonato Brasileiro, em 2008, e fiquei em 3 lugar – descreve com entusiasmo a jovem de 20 anos, hoje parte da categoria Sub-23.


Além de fã de Fabiana Murer, o maior nome da modalidade no Brasil, Maria agora também é sua parceira de esporte, colega de profissão e, ao mesmo tempo, a novata que ouve com atenção todas as dicas de quem ela admira.
 

- Eu a vi pela primeira vez no Pan-Americano. Fomos ao Troféu Brasil em 2010, e ela começou a me orientar. Disse para eu não desistir porque a nossa prova é muito complicada. E eu não vou desistir!

Maria aprendeu que, no salto com vara, o saltador não é o ator principal. O atleta precisa de muita atenção e entrosamento em todo o processo da prova.

- Também não adianta só passar o sarrafo. É preciso saber correr do início ao final da pista. É uma corrida progressiva e toda sincronizada – destaca a atleta que sempre foi muito exigente consigo mesma, elevando a sua marca, às vezes, em 20 centímetros quanto seus amigos perguntavam.


- Eu sempre dizia que estava saltando mais. Não quero ficar satisfeita, porque quando a gente fica satisfeita, a gente relaxa. Quero chegar em 2016 insatisfeita para lá alcançar o que eu desejo.
Experiência olímpica na bagagem na volta de Londres.

Bagagem cheia

Dentro de algumas horas, três dos atletas da equipe (os maiores de idade) respirarão o ar olímpico. Além de um treinamento de alto rendimento que vai reunir 60 participantes de todo o mundo na academia Powerade, a experiência se estenderá ao parque olímpico e às provas de atletismo, que eles assistirão de perto, bem perto. Na contagem regressiva, a equipe não tem dúvida de que vai aprender muita coisa...

- Vou participar, mesmo que como espectador de uma Olimpíada, e conhecer muitas pessoas de outras partes do mundo. Essa interação é muito importante para o atleta porque ele precisa colecionar essas experiências. Tudo isso faz parte do crescimento dele, disse Kerindê, com maturidade, mas sem esconder a ansiedade em ver os anéis olímpicos na London Bridge (Ponte de Londres).

- A gente nunca imaginou estar tão perto de uma Olimpíada. Não é uma viagem qualquer. Não vamos lá para assistir e brincar. Vamos entrar no clima de competição e sentir na pele como é estar lá, completou Maria.


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