Carlos Eduardo Novaes

A tocha é nossa

Será que em 2016 a cerimônia de abertura ficará incólume ao espírito crítico do carioca?
31/07/2012 13:00 - Atualizado em 31/07/2012 13:06
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Enquanto assistia emocionado àquela exuberância de cores, sons e movimentos que os ingleses exibiam na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, eu não conseguia deixar de pensar em como o Rio de Janeiro vai se apresentar para o mundo em 2016. Uma coisa é certa: Roberto Carlos será o nosso Paul McCartney.

As Olimpíadas são um banquete de 302 talheres (número de provas entre as 36 modalidades) para quem gosta de esportes para além do futebol. Curto tanto que em 1984, ainda no JB, dispensei Los Angeles para acompanhar as Olimpíadas daqui, do Rio. Pela televisão teria chance de ver mais jogos e competições. Agora, com a Sportv transmitindo até “cuspe em distância” em quatro canais, pressinto que este banquete vai me causar uma indigestão.

Cerimônia de abertura empolgou - Foto: AFP

A abertura dos Jogos sempre me mareja os olhos. Ali, naquelas poucas horas, este planetinha mal resolvido parece próximo do ideal de todos nós, longe de conflitos e desavenças, esquecido das diferenças políticas, ideológicas e religiosas, entregue a mais solidária das competições. É um momento de sonho. Pena que ao final dos Jogos todos voltem para casa e guardem o espírito olimpico no armário, obrigados a encarar a dura realidade que não aproxima os povos. Bem disse Woody Allen que “a realidade não é um bom lugar para se viver”.

Toda vez que vejo uma cerimônia de abertura, acho-a melhor que as anteriores e aposto que não haverá outra igual em beleza e emoção. Foi assim com Pequim, com Atenas, Sidney e espero que esta sensação se repita no Rio de Janeiro. A presidente Dilma declarou em Londres, ao deixar a cerimônia, que faremos algo melhor do que os ingleses, que “vamos abafar”. Não duvido, mas como conheço bem o povo carioca não sei se “nossa abertura” passará incólume pelo seu espírito crítico.

Sempre surgirá alguém (ou “alguéns”) reclamando da escolha das escolas de samba, criticando a reprodução da Floresta Amazônica (ou do Pantanal), deplorando a ala dos índios, torcendo o nariz para as vestes dos orixás – no quadro sobre nosso sincretismo religioso – e lamentando a chegada ao estádio do/da Presidente da República em uma jangada, homenagem aos pescadores nordestinos.

Isso sem falar nas críticas que antecederão a cerimônia de abertura e que já pipocam aqui e ali. Conhecendo nossos hábitos e costumes – como não conhecemos de outros povos – não faltará quem aponte um dedo acusador para o abandono das instalações olímpicas depois dos Jogos, ou para as obscuras licitações, a explosão do orçamento, o dinheiro que poderia ser utilizado em projetos sociais e o pouco interesse do Comitê Olimpico Brasileiro na formação de atletas de badminton e luta greco-romana. Que nossas autoridades, políticas e esportivas, tratem de preparar as orelhas porque elas vão arder no correr desses próximos quatro anos.

Desconfio que não foi um bom negócio para o Brasil vir na sequência de um país do Primeiro Mundo com tanta cultura e história para contar. Nosso complexo de vira-latas – como dizia Nelson Rodrigues – ainda sobrevive em muitos bolsões da classe média e será inevitável a comparação com a Inglaterra da Rainha, de Shakespeare, dos Beatles, de James Bond e de Mister Bean, comediante que pôs uma pitada de graça no show dos inventores do “sense of humour” (?).

Estou certo, porém, que nossa criatividade saberá dar a volta por cima dos ingleses. Só espero que não repitamos a forma que eles encontraram para identificar os países no desfile. Desde que assisto aos Jogos, vejo sempre um figurante ao lado do porta-bandeiras segurando uma vara com um cartazete aonde vem escrito o nome do pais (Brazil!). Desta vez, na ânsia de inovar, os ingleses substituíram o cartazete por uma trapizonga apoiada nos ombros dos figurantes que mais parecia um aparelho ortopédico.

Desculpem-me, mas era preciso encontrar algum defeito na festa de London 2012.

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes

O Barão contra as mulheres
 

Guga forever

O porta-bandeira

Um futebol desprezado

Londres+4 ou Rio+20?

Wenlock e Mandeville

Levantamento de...Ufa!...Peso

Desafio olímpico

As gaivotas de Salzburg

O saibro azul do mar

A raçudinha dos Pampas

Flamengo campeão!!

Canoagem, uma aventura nas corredeiras 

Futebol e voleibol, o encontro


Ginástica, o esporte incompreendido 

Um salto para Londres


As meninas do vôlei

Esgrima, um esporte de combate

O eterno Hoyama

Deu samba no adestramento

Os ornamentais dos saltos

Ciclismo, a roda nas Olimpíadas

Vela, o esporte das medalhas

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

A longa final

O vôlei nosso de cada dia

As baixinhas da ginástica

Maratona, a prova maior

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico
 

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira