Carlos Eduardo Novaes

O Barão contra as mulheres

Após sofrerem preconceito, atletas do sexo feminino aumentam participação nos Jogos
24/07/2012 08:10 - Atualizado em 24/07/2012 08:10
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Talvez por ter sido criada depois – quando caiu a ficha de Deus dando conta de que o Homem precisava de uma parceira, para discutir a relação –, a Mulher durante séculos foi considerada um ser humano de segunda classe. Não terá sido por outra razão que o Barão de Coubertin, ao promover a volta das Olimpíadas, foi radicalmente contra a participação feminina. Assim, os Jogos de 1896 – os primeiros da era moderna – transformaram-se em um verdadeiro clube do Bolinha. Não houve mulheres em Atenas.

Dizem alguns estudiosos (interessados em livrar a cara do Barão) que, ao proibir a participação de mulheres, ele pretendia reproduzir os costumes dos Jogos na Grécia Antiga, disputado apenas por homens. Para mim, tal explicação não cola: se o Barão quisesse mesmo repetir o modelo dos gregos, não só não permitiria a presença das mulheres entre o público como obrigaria aos homens a competirem pelados.

Coubertin nadou contra a maré e sua decisão não foi longe. No inicio do século XX as mulheres, tidas como o sexo frágil – apesar de suportarem o peso do “sexo forte” –, sem poderem sequer votar, já esboçavam os primeiros movimentos a favor da igualdade de direitos com os homens. Sob pressão, Coubertin e o Comitê Olímpico Internacional admitiram a participação feminina nos Jogos seguintes, de Paris (1900), mas apenas nos esportes alternativos – tênis, golfe, arco-e-flecha... – fora do programa olímpico. Onze mulheres - cinco golfistas e seis tenistas - se apresentaram para as competições e a tenista inglesa Charlotte Cooper entrou para a história como a primeira mulher a conquistar um título olímpico.

Daí para frente a participação feminina só fez aumentar, ainda que o Barão continuasse torcendo o nariz para a presença das mulheres. Tanto que em 1904, em Saint Louis, elas foram novamente “barradas no baile”. Mas não desistiram de buscar seu espaço nos esportes olímpicos. Inconformadas com a discriminação, voltaram à carga e 36 delas (contra 2.059 homens) participaram dos Jogos de 1908 em Londres. Em 1920, em Antuérpia, já eram 63, e nos Jogos de 1924, em Paris, 136. Até que em 1928 (Amsterdã), o Barão não aguentou mais ver tanta mulher “bagunçando” seus Jogos. Subiu na tribuna e anunciou sua demissão do cargo de presidente de honra do COI, acusando seus membros de terem traído o ideal olímpico ao permitirem a participação feminina. Há registros de que a gota d’água para Coubertin renunciar foi a chegada das mulheres - nesta Olimpíada – às provas de atletismo.

À medida que os Jogos Olímpicos se sucediam, aumentava a presença das mulheres sempre lutando para ingressar em modalidades esportivas restritas aos homens. Elas só vieram a participar de uma maratona olímpica em 1984, nos Jogos de Los Angeles. Nos Jogos de 1996, puderam calçar as chuteiras para disputar o futebol feminino em Atlanta; e somente agora, em Londres 2012, vão calçar as luvas para participar dos torneios de boxe, disputados entre os homens desde 1896. Ou seja, as mulheres tiveram que esperar 116 anos para poderem trocar socos em um ringue olimpico. A importância que o “sexo frágil” vem ganhando no evento pode ser avaliada pela delegação dos Estados Unidos que está desembarcando na Inglaterra: elas serão 269 contra 261 homens. O Barão deve estar rolando na tumba.

Nem todas as mulheres, porém, tem acesso às competições. Se no mundo cristão elas caminham para se tornar maioria entre os atletas, no mundo muçulmano o esporte ainda é coisa “pra macho”. Em Pequim 2008 apareceram algumas “gatas pingadas” do Irã, Egito e Bahrein competindo com o rosto coberto pelo hijab, o véu islâmico. Este ano, o COI convidou representantes do Catar, Brunei e Arábia Saudita - que não obtiveram o índice olímpico – a se juntarem ao contingente feminino em Londres. Desse modo, pela primeira vez na história, todos os países presentes às Olimpíadas (193) terão atletas dos dois sexos.

Tudo indica que as portas do esporte olímpico estão se abrindo em definitivo para as mulheres muçulmanas. Agora só ficará faltando a elas resolverem seus problemas matrimoniais, uma vez que o Alcorão, livro sagrado do Islã, permite aos homens terem até quatro mulheres. Mas isso já é outra história...

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:

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O porta-bandeira

Um futebol desprezado

Londres+4 ou Rio+20?

Wenlock e Mandeville

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O saibro azul do mar

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Canoagem, uma aventura nas corredeiras 

Futebol e voleibol, o encontro


Ginástica, o esporte incompreendido 

Um salto para Londres


As meninas do vôlei

Esgrima, um esporte de combate

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Deu samba no adestramento

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Ciclismo, a roda nas Olimpíadas

Vela, o esporte das medalhas

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

A longa final

O vôlei nosso de cada dia

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Basquete, um jogo por encomenda

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Handebol, o avesso do futebol

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Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico
 

Futebol olímpico, público nem tanto

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira