Carlos Eduardo Novaes

Um futebol desprezado

O que espera a CBF para dar mais atenção e carinho às meninas no Brasil?
03/07/2012 13:00 - Atualizado em 03/07/2012 13:00
Por AHE!
RIO

Saiu a relação das 18 jogadoras da seleção brasileira que vão disputar o torneio de futebol feminino nos Jogos de Londres. Voce que é louco por futebol conhece alguma delas? Se não é parente nem vizinho deve conhecer apenas a atacante Marta, que saiu do interior das Alagoas para conquistar por cinco vezes seguidas o titulo de melhor jogadora do mundo (feito inédito até entre os homens).

Chamada de “Pelé de saias”, Marta provavelmente é a única jogadora que leva uma vida confortável, sempre requisitada por clubes estrangeiros. As outras são obrigadas a ralar adoidado para sobreviverem do futebol feminino que no Brasil goza de uma popularidade semelhante ao nosso hóquei sobre a grama. Não é surpreendente que no país do futebol não sobre um pingo de interesse pelo futebol feminino que afinal saiu de uma costela do masculino? Por que será?

São várias as explicações. Tem gente que responsabiliza os clubes – onde tudo começa – que, deficitários por natureza, preferem se dedicar ao mercado masculino onde mora a fama, o publico e o dinheiro. Alguém já tomou conhecimento de alguma transação envolvendo nossas jogadoras?

A CBF também não valoriza o jogo das mulheres porque não dá retorno, nem de renda nem de patrocínio. Não falta quem acuse a mídia de não abrir espaço para as mulheres de chuteiras. Agora mesmo a noticia sobre as 18 convocadas foi publicada em uma tripinha de canto de página em um dos maiores jornais do país. Compare com a convocação dos homens, anunciada até no Jornal Nacional. A mídia, porem, segue os passos dos clubes e entidades: futebol feminino não vende jornal.

Uma explicação sociológica – que li em algum lugar – afirma que nossa paixão pelo futebol de pernas cabeludas é tão forte e devastadora que não deixa lugar no coração do torcedor para o futebol feminino. Não é de se descartar também a versão que elege o machismo do brasileiro como fonte da rejeição pelo jogo das mulheres. Elas podem atuar no vôlei, basquete, handebol, mas futebol é jogo para homem, frase que escuto desde menino e talvez tenha criado raízes entre nós. Não duvido nada que o lado sádico do torcedor – como o público das antigas arenas romanas – sinta falta dos carrinhos, soladas e entradas violentas que não vê com freqüência no futebol das mulheres.

Penso que é a ausência desse jogo bruto que faz nossos irmãozinhos do Norte considerarem o futebol (soccer) um esporte para damas. Nos Estados Unidos, o futebol feminino é visto com outros olhos, atrai público e patrocínio e acumula mais glórias em copas e torneios do que o esforçado futebol para homens. As norte-americanas ocupam o primeiro lugar no ranking, são as atuais campeãs mundiais e bicampeãs olímpicas. Até onde pude contar já enfrentaram a seleção brasileira 20 vezes com 17 vitórias, dois empates e uma única derrota. Ou seja, o futebol feminino está para os Estados Unidos como o masculino para o Brasil. Definitivamente, lá o futebol não é um jogo para homens.

Apesar de tratado como esporte de segunda classe (ou terceira?) no Brasil, o futebol das meninas ocupa o terceiro lugar no ranking mundial. Das seis Copas do Mundo – disputadas desde 1991 –, as brasileiras chegaram em terceiro em 1999 e em segundo em 2007. Nas quatro Olimpíadas – o futebol feminino entrou no programa olimpico em 1996 –, foram duas vezes vice-campeãs e duas vezes quarto lugar. Se recebessem um pouquinho mais de apoio, nossas meninas já teriam abiscoitado um titulo mundial ou olímpico. Ou será que a CBF está esperando que elas ganhem um desses torneios para lhes dar mais atenção e carinho? O futebol feminino no Brasil vive o dilema do ovo e da galinha.

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:

Londres+4 ou Rio+20?

Wenlock e Mandeville

Levantamento de...Ufa!...Peso

Desafio olímpico

As gaivotas de Salzburg

O saibro azul do mar

A raçudinha dos Pampas

Flamengo campeão!!

Canoagem, uma aventura nas corredeiras 

Futebol e voleibol, o encontro


Ginástica, o esporte incompreendido 

Um salto para Londres


As meninas do vôlei

Esgrima, um esporte de combate

O eterno Hoyama

Deu samba no adestramento

Os ornamentais dos saltos

Ciclismo, a roda nas Olimpíadas

Vela, o esporte das medalhas

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

A longa final

O vôlei nosso de cada dia

As baixinhas da ginástica

Maratona, a prova maior

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico

 

Futebol olímpico, público nem tanto

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira