Paixão pelo esporte

Após quase 14 horas, a sensação de se transformar em um homem de ferro

Triatleta conta como foi a marcante experiência do primeiro Ironman de sua vida
19/06/2012 16:24 - Atualizado em 19/06/2012 17:17
Por Alexandre Castello Branco
RIO

13 horas e 58 minutos.

Esse foi o tempo que demorei para percorrer os 3.8km de natação, 180.2km de ciclismo e 42.2km de corrida e me transformar num homem de ferro no Ironman disputado em Florianópolis. 

O clima na cidade nos dias que antecedem a prova é sensacional. Triatletas para todos os lados correndo, nadando e pedalando com suas bicicletas supersônicas. Tem ainda a Expo Ironman onde é preciso se controlar pra não ficar pobre. Quase aluguei um par de rodas de competição pro Iron mas acabei desistindo de última hora.

Na sexta feira caiu uma tempestade lá, como não via há tempos. Chuva, vento e frio. Fiquei pensando que se no dia da prova as condições fossem essas, ia ser bem complicado de completar. Acabou que no sábado o dia já foi melhorando e no domingo as condições estavam ideais. 

No dia anterior, passei o tempo todo em repouso, guardando energia para o dia seguinte. Fui deitar às 22hs, ainda mais porque teria que acordar às 4h para pintar os números da prova no corpo e levar os últimos itens para a área de transição. A ansiedade era tão grande que não consegui dormir nem 3hs de noite. Fiquei rolando de um lado para o outro na cama visualizando como seria no dia seguinte.

Tudo pronto para a largada e a ansiedade atinge o nível maximo quando estão mais de 2 mil atletas concentrados num pequeno trecho da praia de Jurerê. Quando toca a famosa buzina e todos saem correndo para a água, começa o desafio. Perdi as contas de quantas cotoveladas e chutes recebi na cabeça e por todo o corpo. Não recomendo a experiência pra quem tem medo da combinação mar + multidão. Passado esse aperto do começo consegui encaixar um ritmo bom e fechei a natação em 1h e 10 minutos abaixo do que eu tinha previsto. Meu amigo monstro Rafa Gonçalves mais uma vez saiu em primeiro da água! Sensacional!

Saindo para o trecho de bike, provavelmente o mais duro do Ironman, não estava sentindo praticamente cansaço algum e consegui impor um ritmo relativamente forte pra mim, em torno de 35km/h. Bem no começo, meu amigo e companheiro de treinos Michel encontrou comigo e seguimos forçando durante a primeira hora. Em um dado momento chegamos a discutir se não era melhor diminuirmos um pouco o ritmo já que durante os treinos a nossa média era sempre inferior a isso. Continuamos por mais um pouco e aconteceu o que estávamos temendo. O esforço cobrou o seu preço e por volta do km 110 estávamos muito desgastados já. Ele ainda foi “agraciado” com uma câimbra sinistra e caiu duro no meio da estrada, suplicando por bananas e alongamento. O cara é um verdadeiro Ironman só de ter conseguido se recuperar e ainda completar a prova depois disso. No km 130 já estava sentindo fortes dores em toda a região do pescoço, lombar, joelho doendo num local que nunca tinha doído antes e as coxas começando a ficar duras. 

Cheguei a temer que talvez eu chegaria muito destruído do trecho de bike e não conseguiria completar a maratona no final. Mas eis que tomei uma capsula salvadora de Advil e praticamente ressuscitei! Parei de sentir dores e consegui voltar a impor um ritmo melhor. No final meu estômago ainda passou a rejeitar as batatas cozidas que tinha levado para o “almoço” e passei os últimos 30km enjoado e sem conseguir comer nada. Acabei fechando a bike em 6h e 49 min, bem abaixo do que eu gostaria e do que eu vinha treinando.

Hora da verdade

Na transição para a corrida, tomei dois copos de refrigerante e meu enjoo passou. Agora era a hora da verdade. Era a hora de completar a minha primeira maratona. O problema é que nessa altura do campeonato o corpo já tinha suportado um esforço de 3.8km de natação e 180km de bike. Nos primeiros 25km fui tranquilo apesar de uma subida absurda em Canasvieiras. Os treinos no Joá pareceram fichinha perto dali. Todos, inclusive os profissionais, param de correr e sobem caminhando nesse trecho. Quando chegou no km 28 que a coisa começou a ficar divertida. No meio da passada ouvi um “crec” e percebi que uma unha do pé se soltou. Obviamente seria pior parar e tirar o tênis então continuei mesmo assim. As dores na panturrilha começaram a surgir com tudo também e parecia que eu estava carregando um rinoceronte no bolso esquerdo e um hipopótamo no bolso direito da bermuda de tão pesadas que estavam minhas pernas. A noite começou a entrar e com ela o frio veio junto. Mandei outro Advil pra dentro, esperando que ele tivesse o mesmo efeito milagroso que percebi durante o trecho de bike. Não senti muita mudança. Os últimos 10km da corrida foram feitos praticamente com a cabeça. Já estava bem cansado e com as pernas duras, as panturrilhas parecendo que a qualquer momento me presenteariam com uma câimbra daquelas. 

Após quase 14 horas, a linha de chegada - Foto: DivulgaçãoPassei por vários atletas vomitando, outros tantos parando com dores nos mais diversos lugares do corpo e outros tantos caminhando por todo o tempo. Nesse momento só conseguia lembrar dos treinos duros debaixo de chuva e frio na praia, das pedaladas que deram tudo errado, do sacrifício de acordar todos os dias de madrugada pra treinar e de tudo que eu tive que abrir mão para estar preparado para aquele momento. 

Nada me faria parar. Costumo dizer que eu sou chato quando eu quero alguma coisa. Me dedico e faço o que for preciso pra atingir o meu objetivo. Em nenhum momento da prova eu pensei em desistir, nem nos mais doloridos. Realmente a cabeça é uma peça chave num Ironman. 

A prova é tão longa e desgastante que as pessoas se unem como se fossem amigos de infância. Fiz dois amigos argentinos durante a maratona, sendo que um deles fiz os 3 km finais, um dando força ao outro. Muito legal. E o povo de Floripa é um diferencial também. Em todo o momento o público dá força, grita seu nome, incentiva. É aquele gás a mais que você consegue quando ouve uma família inteira gritando seu nome e dando os parabéns pelo que você está fazendo.

Finalmente, os últimos 100m são emoção pura. A entrada, com um pórtico e um “mini sambódromo” com arquibancada, é demais. Quando você entra, o locutor e a torcida gritam seu nome e quando passa por debaixo do cronometro e lê a frase “You are an Ironman” é difícil não ficar arrepiado. Por alguns segundos toda a dor passa e você esquece que ficou um dia inteiro se esforçando e superando seus limites. Fiquei feliz por ter completado a prova? Sim, muito! Fiquei feliz com o tempo que eu fiz? Não muito. Tenho certeza de que poderia fazer melhor. Sou muito exigente comigo e meia hora depois de completar já estava pensando o que eu poderia ter feito melhor. Minhas transições demoraram muito. Forcei muito na primeira volta de bike e quase quebrei na segunda. Minha alimentação na bike poderia ter sido melhor. Poderia ter forçado um pouco mais na corrida. Enfim, tenho consciência que eu fiz o Iron sem praticamente experiência nenhuma e que certas coisas se aprende com o tempo e com os erros cometidos. O negócio é aprender com isso e trabalhar para melhorar no futuro.

Ironman, só em 2014

Não tenho como agradecer a todas as pessoas que estiveram envolvidas com esse meu “Projeto Ironman”. Minha família, namorada, amigos, colegas de trabalho. Não tenho como não ser grato pela paciência que tiveram com meus horários loucos de treinos, minhas privações, dieta e falta de vida social. Meus pais e minha namorada que praticamente fizeram um Ironman só me acompanhando durante todo o dia também. Acho até que meu pai ficou mais cansado que eu no final do dia (risos).

Ao meu técnico Alexandre Ribeiro e toda a equipe Pro Ribeiro também que foram essenciais não só durante todos os meses de treinamento mas como também nos dias que antecederam o Iron e durante a prova também. Não poderia haver melhor equipe de apoio. O que dizer quando o pentacampeão do Ultraman te acompanha de bike no começo da maratona e diz que você está inteiro, solto e te dá uma força enorme? 

Alguns amigos em especial também estiveram presentes durante os treinos, sofreram junto comigo e passaram muitos perrengues nos últimos meses. E ainda tiveram que me aturar fazendo 15.000 perguntas sobre todos os detalhes possíveis de uma prova como essa. Michel, Bê Alvarenga (que alem do mais foi uma equipe de apoio sensacional! Ta contratado para os próximos anos já!), Rafa Gonçalves, Rafa Rapha, Daniel Pires, Diego (o atleta mecânico da casa!), Nat, Andrea, Virgílio, Solange, Clarisse, Mauro e vários outros amigos que passaram no caminho durante os treinos.

Posso afirmar que foi uma experiência e tanto e que com certeza vou levar isso para o resto da vida. Você passa a se conhecer melhor, não só seu corpo propriamente dito mas também percebe que se você se dedicar, tiver disciplina e correr atrás do que você deseja, pode alcançar feitos incríveis. Agora, depois do Ironman, acho que posso fazer qualquer coisa que quiser. Tenho convicção nisso.

Agora é descansar um pouco e pensar nos próximos desafios. Iron em 2013 eu estou fora. A idéia inicial é durante o próximo ano fazer provas menores para ganhar experiência e de repente em 2014 fazer o Iron de novo, agora com uma bagagem maior. Vamos ver.

*Alexandre Castello Branco é coordenador de imagem do COB e começou a treinar triatlo há apenas um ano

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