Carlos Eduardo Novaes

Wenlock e Mandeville

Colunista faz um passeio pela história das mascotes dos Jogos Olímpicos
18/06/2012 16:19 - Atualizado em 18/06/2012 16:19
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

O que lhe sugere este título? Os nomes de duas cidades do Velho Oeste? De dois cantores de música country? Sobrenomes de uma dupla australiana de vôlei de praia? Ou dois atletas neozelandeses de luta greco-romana? Pois não se surpreenda se lhe disser que Wenlock e Mandeville são os nomes das mascotes dos Jogos Olímpicos de Londres, extraídos de duas cidades britânicas. Estranhos, não? Mas nem tanto quanto os nomes das mascotes chinesas dos Jogos de Pequim em 2008: Beibei, Jingling, Huanhuan, Yingying e Nini, personagens que representavam as cinco argolas do símbolo olimpico.

Wenlock é uma homenagem à cidade de Much Wenlock que durante os Wenlock Games, no século XIX, inspirou o Barão de Coubertin a retomar, depois de 16 séculos, os Jogos Olímpicos. Mandeville é a cidade onde ocorreram os Jogos Stocke Mandeville, precursor das Paraolimpíadas. Os ingleses foram longe para buscar suas mascotes.

Diz o dicionário que mascote é um amuleto, um animal de estimação que se acredita trazer sorte para seus donos. Deve ser mesmo, porque todos os países que sediam as Olimpíadas – e criam suas mascotes – melhoram seu rendimento esportivo e crescem na quantidade de medalhas. As mascotes olímpicas, porém, não surgiram dos ideais do Barão de Coubertin nem de seus sucessores mais próximos. Ela apareceu pela primeira vez em 1968 nos Jogos Olímpicos de Inverno em Grenoble (França), desenhada por uma mulher, madame Lafargue.

Madame descartou a ideia do animal e fez da mascote olímpica (não oficial) um esquiador estilizado chamado Shuss. A primeira mascote oficial, no entanto, foi um animal, um cão dachshund – Waldi – que apareceu nos trágicos Jogos de Munique em 1972 e, ao que parece, não deu muita sorte para os alemães: um atentado terrorista contra a delegação de Israel, durante os Jogos, deixou 17 mortos. Como não se encontrou relação com o ato de terror, as mascotes continuaram a ser criadas e permanecem até hoje como ponto de venda das Olimpíadas.

Em Montreal 1976, os canadenses lançaram como mascote um de seus símbolos nacionais, o castor Amik. Em 1980, os soviéticos foram na mesma pegada e usaram o urso Misha - também símbolo nacional – para popularizar os Jogos de Moscou. O ursinho tornou-se a mascote mais famosa da história das Olimpíadas, deixando uma contradição no ar. Não é curioso que , para vender seu símbolo olimpico, a antiga URSS, país comunista, tenha se utilizado da prática capitalista do merchandising? Muita gente afirma que Misha ganhou relevância em razão da queda no nível técnico dos Jogos, boicotado pelos Estados Unidos e outros 69 países.

Depois do urso veio a águia americana, Sam, nos Jogos de 1984 em Los Angeles. Em 1988, os coreanos deixaram o símbolo nacional de lado e elegeram dois animais extraídos de suas lendas, os tigres Hosuni e Hodori.

Nos Jogos de Barcelona em 1992, os espanhóis ainda usaram um animal, o cão pastor catalão Cobi. Mas a partir daí as mascotes passaram a nascer nas pranchetas das agências de publicidade; em 1996, nos Jogos de Atlanta, a mascote foi uma figura abstrata chamada Izzy (que se pronuncia igual a “ease”).

Wenlock e Mandeville são duas gotas de aço humanizadas, as duas últimas gotas que restaram da última viga de suporte do Estádio Olimpico de Londres. Já circula por aí um desenho animado – “Fora do Arco-Íris” – que conta a história da criação das duas mascotes. Ainda não vi o desenho, mas de antemão não sei se duas gotas de aço seriam o melhor símbolo para um evento que se diz preocupado com a preservação ambiental (e reduziu drasticamente a quantidade de aço e concreto em suas instalações). A não ser que elas pretendam representar a despedida do aço no meio-ambiente.

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:

Levantamento de...Ufa!...Peso

Desafio olímpico

As gaivotas de Salzburg

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A raçudinha dos Pampas

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Canoagem, uma aventura nas corredeiras 

Futebol e voleibol, o encontro


Ginástica, o esporte incompreendido 

Um salto para Londres


As meninas do vôlei

Esgrima, um esporte de combate

O eterno Hoyama

Deu samba no adestramento

Os ornamentais dos saltos

Ciclismo, a roda nas Olimpíadas

Vela, o esporte das medalhas

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

A longa final

O vôlei nosso de cada dia

As baixinhas da ginástica

Maratona, a prova maior

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico

 

Futebol olímpico, público nem tanto

 

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira