Carlos Eduardo Novaes

Futebol e Voleibol, o encontro

Esporte bretão posa de marrento, mas leva uma lição do ´rival` na final da Superliga
17/04/2012 08:56 - Atualizado em 17/04/2012 09:03
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Falaram tanto do sucesso da Superliga feminina que o Futebol resolveu assistir sábado à final entre Osasco e Rio de Janeiro. Foi disfarçado, boné e óculos escuros para não ser reconhecido. Marrento, ele disse que não queria “deslocar os refletores para minha pessoa”. O Futebol é uma figura popular, a maior celebridade esportiva do país, e onde vai é logo cercado por uma multidão de repórteres e fotógrafos. Segundo uma pesquisa, ele ocupa 92,8% do noticiário esportivo nacional.

O Futebol, porém, não permaneceu incógnito por muito tempo. O Voleibol descobriu-o a um canto das arquibancadas e foi a ele sorrindo com todos os dentes, diante do público que enchia o Maracanãzinho.

- Você por aqui, Futebol? Quanta honra! A que devo sua presença?

O Futebol não quis revelar a verdadeira razão de sua presença – avaliar a ameaçadora popularidade que ganhava o Voleibol - e disfarçou:

- Estou de folga. Os jogos do Campeonato Estadual são todos amanhã (domingo). Resolvi prestigiar suas meninas.
- Legal. Está vendo só o espetáculo!! Quase 12 mil pessoas no ginásio! Você tem tido muita gente no seu Estadual?

O Futebol pigarreou meio sem graça, mas não perdeu a pose de celebridade:

- Vamos encher o estádio agora nas semifinais.
- E suas meninas como vão?
- Minhas meninas? – o Futebol engasgou – Não tenho tido notícias delas.
- Elas não estão se preparando para as Olimpíadas de Londres?
- Estão, quer dizer, não sei – tentou se desculpar – Eu sou meio machista, você sabe...Meu esporte é pra homens!
- E a seleção masculina, como vai? Ouvi dizer que você nunca conquistou um ouro nas Olimpíadas...

O Futebol não gostou do comentário:

- Quem se importa com Olimpíadas? Só me preocupo com Copa do Mundo. Deixo o ouro das Olimpíadas para outras modalidades ...Você, por exemplo. Eu não posso carregar sozinho o esporte brasileiro nas costas.

Voleibol sorriu:

- Dá para perceber que você está cansado, um ar abatido. Mas não precisa se preocupar comigo. Hoje eu brilho até em casa. O ginásio está lotado!
- Espera só pela minha final no Engenhão.
- Não me surpreenderá. O Brasil não é o seu país? O país do Futebol?

Desta vez o Futebol gostou da observação:

- Modestamente – gemeu – Quem você acha que trouxe a Copa de 2014 para cá? Eu! Graças à minha força, minha influência, meu prestigio...Vamos sediar e vencer a Copa!
- Tem certeza?
- Não vamos repetir aquele Maracanazo de 1950 que me deixou de cama, doente...
- Pelo que dizem por aí sua seleção principal ainda não acertou o passo. Se você não vencer a Copa seu ibope vai cair para níveis do hóquei...
- Se não vencer a Copa pelo menos muita gente vai ganhar dinheiro com as obras para 2014 – e estufou o peito – Você sabe que movimento milhões , bilhões...E quanto à você?
- Eu não preciso de tanto dinheiro para ser feliz. Hoje em dia sou mais respeitado do que você que está em sexto lugar no ranking da FIFA – e o Voleibol bateu duro – Está atrás do Uruguai! Do Uruguai que tem metade da população do Rio de Janeiro! Como é que pode?
- Estou atravessando um momento difícil na minha vida. Não tenho uma seleção escalada, não tenho esquema tático definido, não tenho meias armadores, mas logo isso vai mudar e logo minha estrela voltará a brilhar...
- Como a minha? – arrematou o Voleibol.

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira