Carlos Eduardo Novaes

Ginástica, o esporte incompreendido

Mestre Pipico tira dúvidas sobre nota de partida, divisão dos juízes, amanar...
11/04/2012 10:13 - Atualizado em 11/04/2012 10:42
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

A proximidade dos Jogos de Londres levou-me a contratar o Mestre Pipico para algumas aulas particulares sobre esportes olímpicos (ele é uma enciclopédia na matéria). Pedi para começar pela ginástica artística, esporte em que me considero um semi-analfabeto. Ele apoiou minha sugestão erguendo o dedo indicador, professoral e afirmando: “A ginástica artística é um dos esportes mais apreciados e menos compreendidos”.

- Talvez por isso – continuou – seja chamada de artística que, evidente, vem de arte. Quantas obras de arte admiramos, sem entendê-las? Quem entende o quadro “A Metamorfose de Narciso” de Salvador Dali?

Ato contínuo Pipico mostrou-me o recorte de um jornal onde nosso campeão Diego Hypolito afirma que sua série em Londres será mais difícil do que a de Pequim 2008, mas ele desconhece qual será sua nota de partida. Permaneci em silêncio, olhando para a cara do Mestre com um ar de “e daí?”. Pipico sorriu e mandou:

- Por acaso o caro amigo que tanto aprecia esses incríveis ginastas em seus maravilhosos aparelhos, sabe o que significa “nota de partida”?
- Não faço a menor ideia – respondi baixinho

Pipico então explicou: A nota de partida resulta do valor que os juízes atribuem aos elementos que o ginasta vai executar em sua série. É claro que eles tomam conhecimento de tais elementos antes da competição. Quanto maior for o grau de dificuldade, maior será a nota de partida.

Pipico ilustrou sua explanação com as palavras da atleta Jade Barbosa, que já declarou que vai elevar o grau de dificuldade de sua série voltando a executar o amanar.

- Executar o que? – interrompi
- O amanar que vale 2,5 pontos e vai elevar a nota de partida de Jade para 6,50!
- Eu ouvi – retruquei – só não sei o que significa amanar...
- Pirueta!


Diego Hypolito em ação - Luiz Pires / Vipcomm 

A nota de partida varia de atleta para atleta, sendo ela apenas uma parcela do resultado final do ginasta. A nota de partida é avaliada por dois juízes do chamado grupo A. A outra parcela vem dos seis juízes do grupo B que analisam a execução da série avaliando os movimentos e o desempenho artístico do atleta.

- Não sabia que havia dois grupos de juízes...
- Não me surpreende – reagiu o Mestre – o trabalho dos juízes é tão incompreendido quanto o dos atletas nos aparelhos.

Na execução o limite máximo é de 10 pontos. À medida que o atleta comete erros os pontos vão sendo descontados. Se ele se despregar do aparelho é descontado um ponto. Para erros pequenos, médios e grandes são abatidos 0,1, 0,3 e 0,5 pontos, respectivamente. A nota final é a soma das notas dos oito juízes dos grupos A e B, conferida após as avaliações e deduções. Sendo que das seis notas do grupo B são eliminadas a maior e a menor

- Poxa – gemi – agora entendo porque a nota final às vezes demora tanto para ser anunciada
- E tem mais – afirmou Pipico – Na execução, os exercícios têm um valor inicial de 8,60 para os homens e 9,00 para as mulheres. Se o atleta não acrescentar à sua série elementos de dificuldades, que dão bônus, este será o máximo de pontos que conseguirá na execução. Atualmente nenhum atleta consegue mais aquela nota final 10 que a baixinha Nadia Comaneci conquistou em 1972 nos Jogos de Munique.

- Por quê? – minha pergunta era óbvia
- Porque a Federação Internacional de Ginástica separou as notas de partida (graus de dificuldades) das notas de execução e ninguém chega aos 10!
- Separou como?
- Através do Código de Pontuação, uma espécie de estatuto da Federação que rege o sistema de avaliação...
- Dá para falar um pouco sobre esse código?

Pipico olhou para mim, para o relógio e disse:

- Daria... se tivéssemos mais duas horas de aula! É um calhamaço de páginas que muda a cada Olimpíada, para desespero de atletas, técnicos e juízes...

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:


Um salto para Londres

As meninas do vôlei

Esgrima, um esporte de combate

O eterno Hoyama

Deu samba no adestramento

Os ornamentais dos saltos

Ciclismo, a roda nas Olimpíadas

Vela, o esporte das medalhas

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

A longa final

O vôlei nosso de cada dia

As baixinhas da ginástica

Maratona, a prova maior

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico       

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira