Carlos Eduardo Novaes

Mayra Aguiar, do tatame ao pódio

Cronista aposta na judoca brasileira para medalha nos Jogos Olímpicos de Londres
07/02/2012 13:53 - Atualizado em 08/02/2012 18:11
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Guarda este nome: Mayra Aguiar, uma gaúcha de 20 anos, 1,75m, que nos Jogos de Londres poderá deixar o tatame como a primeira judoca brasileira a conquistar um ouro olímpico. Mais do que uma esperança, Mayra é a certeza de - pelo menos - um bom combate na categoria meio-pesado (78 kgs) onde ocupa o terceiro lugar no ranking mundial.

Domingo, Mayra venceu cinco lutas - três por ippon - para se sagrar campeã do Grand Slam de Paris. Ainda bem que os confrontos não duram mais do que cinco minutos. Mesmo assim, a gaúcha chegou exausta à final com a americana Kayla Harrison – ouro no Pan de Guadalajara – e, depois de “sair atrás no marcador”, punida por falta de combatividade, deu a volta, foi com tudo e derrotou a adversária por um yuko.

E o que vem a ser um yuko? Perguntará você, que de judô só conhece o quimono. Yuko é o golpe com que o judoca leva o adversário a cair de lado. Na escala de pontuação, vale apenas um terço de ponto, menos do que o ippon (um ponto redondo) e o wazari (meio ponto), mas o suficiente para definir uma luta.

O ippon – que todos conhecem de nome – corresponde ao nocaute no boxe. O judoca derruba o adversário e, se conseguir imobilizá-lo durante 30 segundos com as costas (ou os ombros) no chão, encerra-se o confronto. O wazari é um ippon que não deu certo. Ou seja, o adversário cai, mas seus ombros não encostam no tatame. Ainda há o koka, a pontuação mais baixa (um quarto de ponto), que ocorre quando o judoca cai sentado. Ressalve-se que a luta não termina se ele cair sentado quatro vezes (ridículo!).

A vitória de Mayra em Paris não foi obra do acaso. Em janeiro ela já havia abiscoitado um ouro no Masters do Cazaquistão, que reúne os 16 melhores judocas do ranking.

Mas nem tudo foram flores na trajetória da gaúcha que na adolescência ficou dividida entre o judô, o balé e a ginástica olímpica. Apesar de ter vencido em 2007 a Copa do Mundo de Varsóvia e ter sido vice-campeã no Pan do Rio 2007 com 16 anos, na Olimpíada de Pequim (2008), onde chegou bafejada por um sopro de esperança, não passou da primeira luta, eliminada por uma representante da Espanha, país sem a menor tradição no tatame. Talvez esta derrota tenha deixado Mayra “mordida” e disposta a correr atrás do prejuízo.

O judô é um dos esportes onde o Brasil acumula mais medalhas olímpicas. São 15 no total, duas de ouro, três de prata e 10 de bronze. Nossa primeira medalha – de bronze - foi conquistada nos Jogos de Munique 1972 por um descendente do país onde nasceu o judô: Chiaki Ishi. Daí para frente, os brasileiros aprenderam a lutar e dispensaram os nomes japoneses para conquistar suas glórias. Aurélio Miguel – quem não lembra? – foi nosso primeiro ouro, em Seul 1988, e quatro anos depois, em Barcelona 1992, Rogério Sampaio voltou ao alto do pódio.

Entre as mulheres, temos uma única medalha olímpica, de Ketleyn Quadros, bronze em Pequim 2008. Mayra é forte candidata a aumentar a coleção. Sente-se mais madura – como ela mesma declara – “meu corpo está melhor”, a cabeça não é mais a da adolescente que perdeu para a espanhola e – por coincidência – completará 21 anos de idade no dia 3 de agosto, durante os Jogos de Londres. Quem sabe nesse dia ela não estará nos presenteando com uma medalha de ouro? Faço fé.

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:

A longa final


O vôlei nosso de cada dia

As baixinhas da ginástica


Maratona, a prova maior

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico        

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira