Carlos Eduardo Novaes

Maratona, a prova maior

Nova crônica da série `A invenção dos esportes´
10/01/2012 14:37 - Atualizado em 10/01/2012 14:37
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Não fosse uma guerra e os maratonistas de ontem e de hoje estariam se dedicando a outro esporte, talvez a outra atividade.

Conta a História que durante a Primeira Guerra Médica (490 a.C.) os persas juraram que depois da vitória sobre os gregos invadiriam Atenas, violariam as mulheres e sacrificariam as crianças. Ameaçados, os atenienses ordenaram às suas mulheres que matassem os filhos e se suicidassem caso não recebessem em 24hs a notícia da derrota dos persas.

Os persas do rei Dario foram derrotados, mas acontece que a guerra durou mais tempo do que o esperado. O general Milcíades então se apressou em enviar o soldado Filipídes à cidade para evitar que as mulheres de Atenas cumprissem o combinado. Dizem que Filipídes partiu em desabalada carreira, entrou na cidade, gemeu “Vencemos!” e caiu duro pelo esforço despendido ao longo de cerca de 42 kms desde as planícies de Maratona, palco da batalha final. Desta corrida nasceu a prova mais nobre do atletismo.

A prova foi criada na retomada das Olimpíadas, em Atenas (1896), ganhou o nome de maratona – por razões óbvias - e teve como vencedor o grego Spiridon Louis. Nas Olimpíadas seguintes, a distância variou, sempre em torno dos 40 kms. Somente em 1948, nos Jogos de Londres a prova se fixou nos 42,195 kms, distância que permanece até hoje. O que pouca gente sabe é que esses 195 metros a mais foram incluídos para que a família real pudesse assistir do Palácio de Windsor à partida da competição. O que não se fazia para agradar os ingleses!!

Spiridon Louis era um agricultor, baixinho, que aos 25 anos conquistou a única vitória para a Grécia, justamente na última prova dos Jogos de Atenas. Eufóricos, os gregos cobriram Spiridon de prêmios. Ganhou um terreno nos arredores da capital, 365 dias de refeições gratuitas em um restaurante de luxo e, entre outras premiações, o direito de ter os sapatos engraxados para o resto da vida. Spiridon fez os 42 kms em 2h58m50s, quase uma hora a mais do que a atual marca mundial assinalada em setembro último pelo queniano Patrick Makau na maratona de Berlim (2h03m38s).

Por coincidência, foi também na maratona de Berlim que o brasileiro Ronaldo da Costa, quebrou em 1998 o recorde mundial – que já durava 10 anos - com o tempo de 2h06m05s. Será que a maratona alemã tem alguns metros a menos? O recorde olímpico pertence a outro queniano, Samuel Wansiru, que correu a prova em 2h06m32s nos Jogos de Pequim (2008), quebrando a marca do português Carlos Lopes que vinha desde os Jogos de Los Angeles em 1984. Fico pensando que, se o Quênia fosse um país pouquinha coisa mais desenvolvido, seus corredores dariam a volta ao mundo com um pé nas costas!!

O Brasil esteve muito perto de vencer uma maratona olímpica com Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos de Atenas de 2004. Vocês lembram, é claro. Quem não esteve na Grécia, viu pela televisão quando um porraloca irlandês invadiu a pista e derrubou o brasileiro (por razões nunca esclarecidas) que vinha liderando a prova já no seu quarto final. Vanderlei ergueu-se, retomou a corrida e chegou em terceiro lugar (bronze). Mas foi como se tivesse ganhado a prova. Nem o vencedor, nem o segundo colocado, juntos, receberam tantos aplausos – de pé – quanto o ex-boia fria paranaense ao adentrar o estádio Panathinaikos.

Nunca a frase do Barão de Coubertin - “o importante é competir” – foi tão bem representada.

Leia as crônicas anteriores de Carlos Eduardo Novaes:

Londres à vista!

Tiro e queda

Basquete, um jogo por encomenda

Salto com vara, curta!

Golfe, o retorno

Handebol, o avesso do futebol

Remo, uma antiga paixão

Tênis, o jogo dos reis

Vôlei: um jogo para senhores?

Quem inventou o esporte?

O grito olímpico    

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira