Londres 2012

AHE! entrevista: Marcus Vinícius detalha desenvolvimento de atletas e treinadores

Confira a terceira e última parte da entrevista exclusiva com o superintendente do Comitê Olímpico Brasileiro
03/12/2011 10:38 - Atualizado em 03/12/2011 12:21
Por Adriano Winckler, Bernardo Coimbra, Daniel Costa e Silva, Fernanda Thurler e Natalia da Luz
RIO

ReproduçãoUsar a tecnologia e a ciência em favor do esporte, bem como a contratação de experientes técnicos estrangeiros, são alguns dos pontos favoráveis para a melhora de desempenho dos atletas brasileiros nas competições de nível internacional. É o que garante o superintendente de esportes do Comitê Olímpico Brasileiro, Marcus Vinícius Freire, na terceira e última parte da entrevista concedida ao AHE!. Confira mais informações sobre os bastidores da entidade e da indicação do país como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

 

Como o COB trata a questão de desenvolvimento de metodologia de treinamento?

 

A nossa posição dentro do Brasil é esporte de alto rendimento. Posso fazer qualquer coisa, mudar a estrutura ou profissionalizar, que mesmo assim as pessoas vão cobrar medalha no Pan-Americano, nas Olimpíadas e resultado. Todas as ações são para melhorar o resultado do Brasil. Dentro da área de desenvolvimento existe uma outra chamada ciência do esporte. Para nós é o diferencial entre 1º e 4º, 1º e 9º, fora da piscina. É uma equipe de filmagens, de bioquímica e fisiologia. Estamos focados na ciência direta. Metodologia de treinador é na escola nacional de treinadores. Isso é papel das confederações, mas podemos ajudá-las. Levamos para Guadalajara uma capitã da marinha, que ficou por lá estudando o clima para nos ajudar a ganhar todas as medalhas possíveis na vela. Ganhamos 11 de 12. Não foi só por isso, claro, mas o detalhe faz a diferença. Ter uma meteorologista na delegação é um luxo que vale a pena, assim como psicólogo, equipe de filmagem, etc. A medalha do Leo de Deus que nós perdemos e depois ganhamos foi recuperada com a nossa filmagem. A ciência é fundamental. É uma aposta nossa. Mas não posso ter controle de tudo. Por isso a gente tenta qualificar. O investimento grande do COB é importação de treinadores e especialistas. São mais de 22 técnicos estrangeiros pagos pela lei Agnelo Piva. Temos treinador cubano, italiano, coreano, malaio, russo, ucraniano... esse é o nosso papel.

 

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Então o COB incentiva a contratação de técnicos estrangeiros pelas confederações?

 

Optamos por trazer técnicos estrangeiros principalmente em modalidades que não temos história, como tiro com arco ou tiro esportivo, e modalidades em que o peso do treinador seja um julgamento que não é matemático, casos da ginástica e dos saltos ornamentais, cujas notas são subjetivas. Você ter o Bernardinho da modalidade sentado ali faz diferença. Nós vimos isso com o Oleg (Ostapenko), campeão olímpico e mundial. Ter esse cara na sua delegação faz a diferença. Temos ótimos técnicos no Brasil, só que não temos nenhum técnico campeão olímpico. Isso faz a diferença, porque ele é respeitado. Meu sonho de consumo é o técnico da seleção feminina de judô de Cuba. O cara ganhou tudo na vida. Tem 19 ou 20 medalhas olímpicas e mais de 50 mundiais. Ele sentado ali ganha no berro. Assim acontece no taekwondo. Temos técnicos bons, mas podemos melhorá-los e muito. Trouxemos um russo para a ginástica e vamos trazer mais. O treinador estrangeiro sempre tem duas responsabilidades: resultado, de qualquer tamanho ou legado, e um segundo papel que é qualificar os treinadores locais, até porque ele não vai ficar a vida inteira. O Renato, treinador do Diego Hypolito, é cinco vezes campeão do mundo. É um ótimo treinador, mas se tiver um russo, um ucraniano ao lado dele seria melhor. Esse é a nossa proposta. Sem menosprezar o treinador brasileiro.

 

Esse ciclo de 2012 e 2016 é a última chance das pessoas e os patrocinadores se envolverem de vez com os esportes olímpicos?

 

- Nós fizemos isso na campanha. Aproveitamos uma oportunidade em que os astros estavam completamente alinhados. Astros que eu digo são: Eduardo Paes, Sérgio Cabral, Lula, a economia brasileira, o Nuzman, Paulo Coelho, Pelé, Havelange... Estava tudo 100% alinhado e a nossa linha foi “it’s now or never”. Está tudo tão bom para o nosso lado, que certamente se não for agora nós não vamos conseguir em outra oportunidade. Tivemos uma outra vantagem também que foi ter realizado o Pan em 2007. Só estamos aqui por causa disso. Pan 2007, Mundial Militar em 2011, Copa das Confederações em 2013, Copa do Mundo em 2014, todos os pré-eventos em 2015 e os Jogos Olímpicos de 2016. Além disso, depois de Londres todos os Mundiais serão realizados aqui no Brasil. É nossa oportunidade de ouro.

 

ReproduçãoTirando os esportes tradicionais, há algum atleta ou equipe que vocês estejam projetando para ganhar medalha em Londres?

 

Temos um mapa, separados em blocos, no qual olhamos 193 atletas de forma diferenciada. Tenho bloco dos cinco primeiros do mundo, dez primeiros do mundo, 25 primeiros do mundo, jovens promessas, atletas em recuperação, como Natalia Falavigna e Diego Hypólito, etc. E essa lista vai mudando com o tempo. Isso vale para esporte individual, duplas e times. Para todos eles eu tenho um olho diferente. No vôlei de praia masculino, tenho Emanuel e Alisson no primeiro grupo e em jovens promessas tenho duas duplas de jogadores com 19 anos. Um desses garotos tem 2,10m e salta 1 metro do chão. O que eu faço para cada um dos dois? Para os primeiros eu não preciso muito, apenas pagar o aluguel de uma casa um mês antes dos Jogos para eles treinarem direto na cidade do evento. Para esse garoto, alugamos um apartamento em frente ao Marina (clube na Barra da Tijuca), onde ele treina, almoça, treina e janta. E isso tudo com metas. Para um a meta é 2012, para outros a meta é 2016, e para outros é 2030. Nessa turma aqui, olho todos os Mundiais Sub23, Sub20 e Sub18, e tenho um software e um grupo de análise só de adversários. Não adianta também ele saltar 7m, se todos os adversários da idade dele estão saltando 8m. Ou a gente arruma esse metro a mais ou não vamos conquistar nada.

 

Vocês têm um grande número de ex-atletas participando dessa gestão profissional no COB. Isso ajuda na hora de perceber as necessidades dos atletas da atualidade?

 

O meu esporte foi o que começou a fazer isso. Eu sou gaúcho e jogava na Sogipa, em Porto Alegre. Eu ganhava dois refrigerantes e dois sanduíches quando acabava o treino. Era o meu pagamento. Vim para cá jogar na primeira equipe profissional, que era a Atlântica-Boavista. Nós vivemos essa transição. Quando passamos das oitavas de final em 84, nós fomos para um hotel. Coisa que se faz hoje em dia. Mas estamos falando de 84. Naquela época cada jogador recebeu US$ 9 mil pela medalha de prata, coisa que até hoje a maioria das confederações não faz idéia de como pagar. Imagine isso há 30 anos. Hoje, como não posso mais dar soco na bola, o Sebastian (Pereira) não pode derrubar mais ninguém, e a Soraia (Carvalho) não pode mais fazer os movimentos da ginástica, nosso trabalho vai até os atletas entrarem na quadra. Nossa conversa aqui é sempre assim: o atleta tem que chegar na competição e só pensar em se alimentar, descansar, treinar e competir. Tudo em volta tem que ser preocupação nossa. O atleta não precisa pensar em mais nada. Esse é o nosso foco de trabalho.

 


 

Confira a 1ª parte - AHE! entrevista: Marcus Vinícius Freire fala sobre planejamento do COB para 2012 e 2016

 

Confira a 2ª parte - AHE! entrevista: Marcus Vinícius explica a relação do COB com as confederações





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