Londres 2012

AHE! entrevista: Marcus Vinícius explica a relação do COB com as confederações

Confira a segunda parte da entrevista exclusiva com o superintendente do Comitê Olímpico Brasileiro
02/12/2011 11:35 - Atualizado em 02/12/2011 13:46
Por Adriano Winckler, Bernardo Coimbra, Daniel Costa e Silva, Fernanda Thurler e Natalia da Luz
RIO

ReproduçãoO modelo de planejamento estratégico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) com as 28 confederações esportivas nacionais pode ser comparado à relação de um pai com seus filhos. A entidade que centraliza o desenvolvimento do esporte nacional tem a função de coordenar a distribuição de dinheiro público arrecadado pela Lei Agnelo Piva. Repassa mais ou menos dinheiro dependendo de uma série de fatores, como resultados obtidos, perspectiva de crescimento, propostas de treinamento e inovação, por exemplo. Mas, sobretudo, deve levar em conta que cada uma tem características e potenciais próprios. Tem que cuidar das menores às maiores, dando a 'mesada' de uma forma justa.

Na segunda parte da entrevista exclusiva para o portal AHE!, o superintendente executivo do COB, Marcus Vinícius Freire, explica detalhadamente a relação da entidade com as confederações brasileiras na preparação para os próximos eventos.

O COB divide a preparação dos atletas com as Confederações?

 

Temos dois modelos. Nosso principal financiamento é a Lei Agnelo Piva, que repassa 2% da arrecadação das loterias para o COB e o CPB, para que estes façam a distribuição para as confederações, entre R$ 1,3 milhão e R$ 3,3 milhões. As entidades trazem à mesa seus outros recursos, de patrocinadores. Fazemos, então, um planejamento para os próximos 12 meses levando em consideração metas, sistema de treinamentos e competições. Uma parte desse dinheiro vai para um fundo de projetos especiais do COB. A Confederação de Tiro com Arco, por exemplo, vem a nós e apresenta seu projeto, mostra tudo que tem que fazer no período, a contratação de um treinador coreano, a manutenção do Centro de Treinamento de Maricá/RJ e do outro em Campinas/SP. O R$ 1,3 milhão foi todo aplicado nestes gastos. Porém, eles me dizem que seria interessante ir à Copa do Mundo ou levar seus atletas juvenis para morar um mês na Coréia do Sul. O dinheiro inicial acabou. Eles, então, apresentam esse projeto a um colegiado, que administra o fundo de projetos especiais. São sete pessoas, sendo cinco do COB e dois do Ministério do Esporte.

 

Qual é o foco desses projetos?

 

Metas que se encaixem com as do COB. Podem ser metas para possíveis finalistas de 2016 ou para legado. Há Confederações que têm apenas três federações, mas precisamos ajudá-las a ter um legado. Num primeiro momento ela precisa ser campeã pan-americana, enquanto outras podem ser finalistas ou ainda campeãs olímpicas. Ajudando quem ainda não tem muito, eu deixo um legado para que eles possam estar em patamares mais altos no futuro. Cada confederação tem a sua história e característica diferente. Precisamos estar atentos a isso.

 

ReproduçãoO aparente amadorismo de algumas confederações brasileiras preocupa o COB?

 

Temos uma diferença enorme entre a maturidade das nossas 28 confederações. É meio como a história do ovo e da galinha. Você pega a CBV, que tem dinheiro e resultado. Se tem resultado, tem modelo administrativo, que gera reposição de atleta. Com reposição de atleta, ela consegue patrocínio, e isso ajuda a trazer resultado, que gera administração, reposição de atleta, mais patrocínio... enfim, é uma roda que funciona. Aí você pega a confederação de tiro com arco, que tem apenas três federações, seis atletas, um presidente que mora em Campo Grande/MS, a parte administrativa em Brasília, e um centro de treinamento em Maricá, no Rio. Por uma falácia da nossa constituição, o presidente é sempre um voluntário. Nesse caso é um médico, que não tem tempo para se dedicar, pois precisa trabalhar em Campo Grande. Em função disso, não consegue mais dinheiro para a modalidade, e não tem resultado. Sem resultado, não tem patrocinador, e, por conseqüência, não consegue atleta. Isso fica rodando. Em 2002 conseguimos, depois de 30 anos, a Lei Agnelo Piva, que melhorou um pouco isso aqui. Há um caso engraçado, do presidente da Confederação Brasileira de Esgrima, que veio para uma assembléia e pediu a palavra: “Queria informar a vocês que estou de sede nova, e quem quiser visitá-la está aqui na garagem, no porta-malas. Troquei de carro. Estou de carro novo, tem quatro portas e todos os documentos em dia” (risos). É uma história de 99, que é real. Ele não tinha nem sede.

 

A forma de gestão é levada em consideração no momento de fazer os repasses?

 

Dos 17 itens que analisamos para o repasse de recursos da Lei Agnelo Piva, quatro deles são de gestão. Não tem nada a ver com resultado, número de atletas, etc. Temos que fazer uma análise mais profunda. Como é que o presidente administra a entidade dele? Como é que ele presta conta? Ele tem um executivo ou uma área de marketing? Em nenhum lugar do mundo as 28 confederações nacionais são maduras. Talvez na China ou nos Estados Unidos. Então, temos que ter de 13 a 20 modalidades que vamos focar. Não adianta querer ganhar em tudo, pois aí não vamos ganhar em nada. Eu tenho que melhorar todo mundo, mas tenho que entender que nem todas vão acompanhar as outras. Hoje somos um dos comitês olímpicos mais profissionais do mundo. Dos 204, estamos entre os três primeiros. Temos vários tipos de confederações. O problema é que enquanto não conseguirmos profissionalizar, dificilmente você terá todas as confederações no mesmo nível.

 

Reprodução

Como acabar com essa hipocrisia da lei de dirigentes não remunerados?

 

Essa mudança não pode ser feita pelo COB. Isso é lei. Não está na lei que o presidente não pode receber salário. Esta ná lei que nas instituições sem fins lucrativos se os seus dirigentes estatutários forem remunerados elas (entidades) não podem receber recurso público. Tem confederação no Brasil, como a CBF, que fez isso. As outras vivem com os recursos da lei também. Algumas menos. A CBV tem R$ 3 milhões da Lei Agnelo Piva, mais uns convênios somando algo em torno de R$ 6 milhões de dinheiro público, e R$ 60 milhões de patrocinadores. Tem pouco dinheiro público, mas tem. Portanto, o seu presidente não pode receber salário. Qualquer mudança da lei cabe ao legislativo fazer. Nossa proposta, visto que a lei está desenhada assim, é que o presidente não precisa ser remunerado, se ele não for um executivo que chega às 7h e sai às 20h. É preciso montar uma estrutura abaixo do presidente. Voltamos de novo à questão do ovo e da galinha.

 

Apesar de os Jogos de 2016 serem no Rio, existe risco de o COI vetar algum esporte em função do nível dos nosso atletas?

 

Não é o COI que veta. Quem cuida do “Field of play” é a Federação Internacional da modalidade. Quem cuida da regra, classificação, como será a disputa, etc, é ela. O que acontece é um interesse gigantesco das Federações Internacionais em nos ajudarem a termos equipes melhores. No hóquei sobre a grama, por exemplo, se o Brasil não jogar serão vendidos menos ingressos, haverá menos procura da imprensa, menos espaço na televisão, menos divulgação, e, depois de quatro anos, quando voltar a votação de quais modalidades entram ou saem do programa dos Jogos Olímpicos, ele vai correr risco. Já tive várias reuniões com a Federação Internacional de hóquei sobre a grama. Eles querem muito nos ajudar, pois é uma modalidade que não classificamos nem para os Jogos Pan-Americanos. Essa parceria já está em andamento. Temos metas para 2012 e 2013, de investimento, participação em competições internacionais e melhora no ranking para conseguirmos a vaga de host country. É um momento bom pra gente. As Federações precisam de nós e nós precisamos dela.

 

Confira a 1ª parte - AHE! entrevista: Marcus Vinícius Freire fala sobre planejamento do COB para 2012 e 2016

 

Neste sábado, na terceira e última parte da entrevista, Marcus Vinícius fala sobre o desenvolvimento dos atletas brasileiros.


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