Carlos Eduardo Novaes

Quem inventou o esporte?

Confira a segunda crônica especial para o AHE! de um dos mestres da literatura brasileira
01/11/2011 17:10 - Atualizado em 01/11/2011 17:15
Por Carlos Eduardo Novaes
RIO

Lembro como se fosse anteontem: o professor Mattos, mestre em Educação Física do Colégio Zaccaria na minha adolescência, reunindo a turma no pátio e anunciando: “Santos Dumont inventou o avião; Graham Bell inventou o telefone e quem inventou o Esporte? Girou o olhar pela garotada à procura de uma resposta e não viu uma única boca se abrir. Diante do silencio, um aluno mais esperto levantou o braço:

- Foi aquele barão que não me lembro o nome... – arriscou.

- Coubertin – acrescentou o mestre - Não! Ele apenas inspirou as Olimpíadas modernas.

Novamente fez-se silêncio e o professor Mattos, saboreando a ignorância geral, mandou:

- Quem inventou o Esporte... Foram as guerras!

A afirmação deu um nó na cabeça da garotada. Esporte não rima com guerra! Pedimos uma explicação e o mestre viajou à Pré-História para nos dizer que os fundamentos iniciais do Esporte estavam ligados às ações do homem de correr, saltar, nadar e lançar objetos à distancia. É provável, acrescentou, que a primeira competição entre nossos antepassados tenha surgido de um desafio: “Vamos ver quem chega primeiro naquela árvore?”.

Mas – afirmou ele de dedo em riste – o desenvolvimento do Esporte veio através das guerras. Foram os gregos – sempre eles - os primeiros a perceberem a necessidade de preparar seus homens através de exercícios físicos para as contínuas batalhas que marcaram a Antiguidade. Os boletins iniciais dos Jogos Pan-Helenicos (depois chamados Olímpicos), porém perderam-se na poeira dos tempos. O registro mais antigo que ficou na História vem de 776 a.C. quando o cozinheiro Coroebus de Elis venceu uma corrida de 192,27 metros tornando-se o primeiro campeão olímpico de que se tem noticia. Seu tempo na prova, no entanto, nunca foi conhecido por absoluta falta de cronômetros na Grécia Antiga!!!

Depois das corridas surgiu o pentatlo (corrida, luta livre, salto em distância e lançamentos de disco e dardo), mais a frente o pancrácio (similar à luta de boxe) e em 608 a.C. os cavalos entraram em cena nas corridas de charretes, bigas e quadrigas. Os Jogos Olímpicos eram realizados de quatro em quatro anos – como atualmente – disputados apenas por cidadãos livres que competiam pelados, como vieram ao mundo. Mulheres, nem nas arquibancadas.

O professor perguntou: lembram da Guerra do Peloponeso? Ninguém lembrava. Éramos péssimos alunos de História Geral. Pois bem, continuou ele, esta guerra resultou da rivalidade entre as duas maiores cidades-estado, Atenas e Esparta. Uma guerra desastrosa – entre torcidas? – que acabou por enfraquecer o mundo grego, abrindo caminho para o domínio macedônio e dois séculos depois para o Império Romano.

O Esporte ainda teve uma sobrevida em Roma até os anos 300 d.C. quando o imperador Teodósio I adotou o cristianismo e pôs fim às festividades ditas pagãs em solo romano, entre elas os Jogos Olímpicos. Tarde demais, contudo. Apesar de ter atravessado uma fase de estagnação na Idade Média, a semente do Esporte lançada pelos gregos não parou de dar frutos e alimentar as emoções do planeta.

Concluindo sua aula teórica o professor Mattos nos jogou no colo uma informação que bem revela como o mundo dá voltas.

- O Esporte tornou-se tão mais importante do que as batalhas que durante a realização dos Jogos na Grécia... as guerras eram interrompidas!

Ao que o aluno mais esperto retrucou:

- Não seriam as guerras interrompidas porque os soldados estavam competindo?

Vai saber. Foi a vez de o mestre permanecer em silêncio.

Na próxima semana, a invenção das diversas modalidades esportivas. Você sabia que o vôlei foi criado como um esporte para a terceira idade?

Leia a primeira edição da coluna:

O grito olímpico

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Carlos Eduardo Novaes
Escritor, jornalista, dramaturgo etc.

Visão muito peculiar dos esportes olímpicos de um dos mestres da literatura brasileira