Paixão pelo esporte

O esporte como identidade nacional

Pátria de Chuteiras vira Pátria Desportiva em eventos como o Pan-Americano
27/10/2011 17:34 - Atualizado em 30/11/2011 23:04
Por Fernando Barbalho
RIO

Em meio a mais um mega-evento esportivo, o brasileiro reencontra sua paixão intermitente com o chamado esporte olímpico, mas desta vez de um jeito diferente. Ao lado de mais uma opção de transmissão televisiva, o público verde-amarelo descobre uma inédita opção dedicada integralmente aos esportes que fogem do quase-monopólio do futebol. O AHE! nasce como veículo privilegiado na dedicação a um espaço único de afirmação da identidade nacional brasileira.

Bandeira brasileira une torcedor na arquibancada e a campeã do salto em distância Maurren Maggi no Pan de Guadalajara - Foto: AFP



Mas quem é este que se arvora a escrever num pedaço de Internet que se promete extremamente bem sucedido? Um torcedor apaixonado. Neste momento, minha singela contribuição é reproduzir texto que publiquei no blog que atualizo de forma absolutamente irregular, o Pátria Desportiva.

Acredito que a abertura daquele texto continua atual, ao descrever que, dentre todas as sensações que arrebatam a torcida brasileira num momento de exposição concentrada e intensa ao conjunto dos esportes olímpicos, talvez a maior de todas seja o novo encontro da sociedade com o seu país; a identificação, no esforço de cada atleta verde-amarelo, da noção recentemente tão aviltada, de que há um Brasil que dá certo, de uma nação que sabe, ao mesmo tempo, ser apaixonada e eficiente.

No momento em que o esporte mais uma vez nos resgata de nosso rodriguiano complexo de vira-latas que nossa classe dirigente insiste em nos impor, uma outra figura do mesmo Nelson Rodrigues se impõe: a Pátria de Chuteiras. A perfeita figura criada por esse inigualável cronista desportivo descrevia a seleção brasileira de futebol como o refúgio de nosso nacionalismo, o espelho e a janela do país que admirávamos e que talvez pudéssemos efetivamente nos tornar.

O tempo passou e a cada quatro anos a sentença inapelável se confirma: a Copa do Mundo é o evento que mais mobiliza o país, que verdadeiramente irmana brasileiros na ocupação das ruas e na partilha de um objeto de amor coletivo, a seleção de futebol.

Entretanto, assim como na economia superamos as monoculturas da cana, do ouro e do café, sem deixarmos de explorá-las cada vez melhor (veja o caso do álcool combustível, orgulho da tecnologia energética nacional), no esporte também deixamos de ser dependentes exclusivos de uma só atividade e, se cada Copa cria um frenesi quase religioso nos torcedores, conseguimos reproduzir o sincretismo dos templos, encruzilhadas e praias, levando nossa fé na "amarelinha" dos campos para as quadras, piscinas e pistas, para tentarmos afirmar nosso valor também em outros esportes.

Esta afirmação nacional se revela de forma inequívoca em outra constatação que ouvi uma vez de Armando Nogueira, outro ícone da crônica esportiva. Ressalvada a imprecisão da citação feita em cima de uma memória de programa de televisão perdida nos anos, diz ele que feliz é o país que celebra heróis forjados nos verdes campos de futebol, em vez dos sangrentos campos de batalha.

Pois é no mesmo Brasil que ri e desconfia de todas as figuras de sua história política, que se produz um rol cintilante de desportistas elevados ao patamar de reis e rainhas, aos quais se devota um respeito e uma admiração genuína.

A partir de hoje, a cruzada de um blogueiro bissexto e torcedor inveterado se junta a esse poderoso rotativo virtual, na missão de mostrar como o esporte é um dos mais fortes, senão o maior, elemento de identidade nacional brasileira e, na esteira desta constatação, de apontar caminhos pelos quais ele pode ser uma poderosa ferramenta de cidadania e de transformação social, não só redimindo histórias individuais, mas criando possibilidades de projetos que possam ser vividos comunitariamente, como espero sejam os Jogos Olímpicos de 2016 e, nas palavras da própria GSN, muito além daquele ano no nosso futuro. A partir de agora, a ideia é dividir ideias sobre as competições em si, as expectativas e as lições que possam inspirar o Brasil, no esporte e na vida.

* Fernando Barbalho é advogado, Procurador do Estado do Rio de Janeiro e apaixonado pelo esporte

Leia a primeira edição da coluna Paixão pelo esporte:
AHE!, por Eduardo Jácome 


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